sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Rrose Sélavy

quando Katherine Dreier pediu a Duchamp
que produzisse um objeto para a irmã
ele lhe entregou uma gaiola contendo
cubos de açúcar
um termômetro
mármore
e um osso de ave marinha, dizendo
Por que não espirrar?

nada permanece
na alma
nem mesmo a exaustão
o vazio

então, por que não fazer qualquer coisa?
como espirrar
irritação que cresce borbulhando
cócegas
e acaba numa explosão climática
e úmida

eu que vivi sem pátria
eira ou beira
ao ócio do sonho
entregue

que vivi somente ao sol
de Espanha
condenado a ser todas as coisas
e as sombras que elas sonegam
ser a sombra das tuas coxas e da tua boca
valvulada

as panturrilhas e a curva macia dos cotovelos
erguer o ventre não é nada fácil
ainda mais depois de espirrar
depois de descobrir que o mundo é uma fachada
onde se movem enganosos autômatos

eu que vivi em todos os lugares
e fui todas as pessoas
a rota de todos os navios perdidos
percorri o éter de planeta em planeta desfolhando
a intocada flor do futuro

na casa da poesia procuro
andar na ponta
dos pés

temo despertá-la
acordar seu tamanho
imenso

ao menos aprendi
EROS É A VIDA

3 comentários:

angela disse...

Ficou bom. A sombra como metáfora está muito bem usada tanto na falta como na presença.

missosso disse...

eros, o tecelão de mitos - já dizia Safo. tks, companheira

José Doutel Coroado disse...

Caro Missosso,
gostei!
cito:
"na casa da poesia procuro
andar na ponta
dos pés"
muy bueno!
abs