sexta-feira, 17 de outubro de 2008

APORIAS DE UM REAL SEM FISSURAS (resposta a P.H.)



Sem a introdução de algum tipo de descontinuidade, espaço e tempo tornam-se conceitos extremamente problemáticos, se absolutizam, chegando ao ponto de ficar incompatíveis com a realidade observada. A escola de Eléa, fundada por Parmênides, abre esta profunda crise no pensamento grego*; os célebres paradoxos de Zenon são as ilustrações alegóricas deste impasse. Num universo em que o número, a matéria e o espaço/tempo fossem infinitamente divisíveis, Aquiles jamais poderia alcançar a tartaruga ou a flecha atingir seu alvo.

Várias são as saídas propostas. Heráclito opta pela impermanência radical: o mundo, como ele o vê, é um brincar infantil sem fim, sem repouso, sem um objetivo outro que não o fluxo perpétuo e sem retorno. No entanto, é preciso dar conta justamente deste vir-a-ser dos seres e das coisas, e assim é que os atomistas (Leucipo e Demócrito) introduzem na completude do Ser parmenidiano a fundamental noção de VÁCUO ― o que faz sentido porque, sem o vazio entre os átomos, o movimento seria impossível

Tudo estaria muito bem e muito bom não fosse o problema do infinito: uma vez assumida a perspectiva materialista, é preciso que cada coisa remeta a uma causa, um antecedente necessariamente material; logo, os átomos vêm de onde? Aristóteles imagina um Motor Primeiro (primum mobile) que estaria na origem de tudo que existe, porém, este primeiro elo da corrente da causação estaria fora do tempo e do espaço que, desta maneira, existiriam desde sempre e para sempre. Alguma coisa ainda parece torta.

Mais complexa é a alternativa de Platão, para quem o movimento e o devir que caracterizam as coisas à nossa volta, nada mais representam do que queda, decadência e corrupção do substrato; na verdadeira realidade, que se estende para além das sombras que percebemos, no mundo das Idéias, reina a imutável perfeição do que é eterno.



* Na verdade, esta é uma crise que começa antes, quando Pitágoras e seus discípulos descobrem os números irracionais, i.e., números que não resultam de uma proporção entre inteiros, como a diagonal de um quadrado qualquer. O conceito de infinito, que ainda levaria mais de dois milênios para ser matematicamente formalizado, faz sua entrada no terreno da especulação filosófica ao se descobrir que, entre dois números finitos quaisquer, há uma infinitude de números irracionais. Mais tarde, também Arquimedes procura evitar a questão quando desenvolve o seu método exaustivo (inscrição de polígonos regulares) para calcular a área das circunferências.

3 comentários:

Paulo Henrique disse...

ih! não sei se entendi. o negócio é colocar fissuras nos real, assim que eu a encontrar faço isso, abração.

missosso disse...

era para ser um outro tipo de caminho/passagem (póros)nesta passagem atual/potencial...

natalia disse...

Mnon dieu, je suis perdu!!!