domingo, 17 de maio de 2009

Também se recolhem os cacos da sombra que voa

Sem título, óleo sobre tela, Bel Teixeira 2008.

A sombra de um grito a correr, um grito
cheio de rachaduras na pele da noite lembrada.
Uma noite corria ao longo de janelas sonoras,
imediatas,
levando na sela, abertos como ela,
lenços.

Muito vivos, grandiosos, brancos, atados
a cascos céleres, correndo como sombras
que discordam da forma
como as coisas devem ser,
ou estar, com as patas na mesa da fantasia

noturna.

E são mulheres ou lenços, mulheres de corrida, mulheres-sonho
pousadas
ao abrigo da terra, como uma estrela
pousaria na sombra,
tremendo como as estrelas tremem na escuridão,
ante o poder extraordinário
que há em serem ditas.

O céu está a galope por cima
e elas passam esquecidas, angustiadas
com a noite esquecida/lembrada,
mas que logo, logo, volta a
correr, porque faz parte do desejo das sombras
correr,
correr como os lenços brancos das estrelas
― velas que se apagam à passagem
dos imateriais.

Eu lembro:
os gritos queimam,
como as éguas e suas crinas queimam,
assim como a aragem da noite-água
viva,
aberta, correndo, lembrando.

O miolo da fechadura guarda um segredo,
da palavra pode-se voltar a fazer imagens;
no centro da tormenta
dorme o silêncio.
Às vezes, nossa pessoa cresce a tal ponto
que é engolida pelos seus
ecos.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Mulher com cigarro, técnica mista


bebi raízes

na carne da montanha

dormi

despido por lençóis d’água

envernizado

na tua sala de estar-mogno

não sou de louça!

não tenho margem de manobra

não tenho quadris, nuca, nádegas

nem clarão fugitivo por onde o sentimento siga no encalço

minha cabeça de edemas

agudos

minha face bolachuda de angosturas

kármicas

sete perguntas quem era

sereia, sirene, verbena

veneris die

simultaneamente doce

instantaneamente morno

entregue às margens que estavam ali

enlaçadas ao vislumbre

da sarça ardente

ao corpo mal contado

e narrativo

ao menos deixa

ao menos por hoje

deitar

na cozinha da tua alma

quarta-feira, 13 de maio de 2009

papel aceita tudo

à Tatiana Mayer (in memorian)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

transformei meu amor em noite para te dar as estrelas

Ilustração: Thiago Boemeke

No amor, a multiplicação do nada: dar o que não se tem

Receber do outro o milagre que ele(a) nunca pôde haver

E, neste comércio de impossíveis, construir o mais louco dos paraísos

Quando jovem corria para o abismo, mesmo porque a neblina me cegava

Hoje, caviloso, poupo moedas para a velhice, sentindo que abraço nuvens

Ando às escuras, bem sei

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Sonho: O lado escuro do caminho


Eu ando pelo caminho escuro. Ando por seu solo imperfeito, suas manchas esverdeadas, seu piso como tijolos muito gastos pelo tempo. Sua noite particular.

Eu ando pelo caminho do lado escuro, separado dos caminhos comuns que todos trilham, que sai deles e volta, como um atalho que ninguém vê. Eu evito os acidentes que não conheço, fico com medo de pisar em algo estranho ou nojento, mas não paro. Nele é difícil prosseguir, e às vezes acho que andei, mas estou no mesmo lugar. Minha respiração torna-se tão pesada que chega a parar. Angústia. Num susto, volto a respirar.

Eu ando pelo caminho à parte, que tem silêncio, onde a luz diminui, que os outros não conhecem. Temo, mas ao mesmo tempo vou com confiança, pois também é meu. Volto por ele ao lugar já conhecido de onde saí. Mas não sei quanto de mim ficou.

domingo, 26 de abril de 2009

o assombro sempre é maior que a assombração







tréplica de uma falsa polêmica (ô vício!)


Caro D.,

1) Jarbas "às-favas-com-os-escrúpulos" Passarinho emporcalhou, sim (é da natureza das aves), o lugar que ocupou ― e emporcalhou com sangue (é da natureza da meganha). O nobre doxógrafo defende que se rasgue a Lei de Anistia ― o que seria o primeiro momento de auto-reflexão sincera na história do país das "transições suaves" ―, mas não acredito que intimamente leve a sério tal possibilidade, nem alimente a crença em processos judiciais à vera para os envolvidos. Não no país do Gilmar Mendes.

2) Mídia no singular explica-se pelo comportamento de manada, mormente as grandes mídias, pautadas que são pela TV. Compare a grita contra os "excessos" das ações policiais no Massacre da Castelinho durante o governo Saulo de Abreu Fº, digo, Alckmin, com a fuzilaria em cima dos Protógenes Fáusticos, dos Joaquins Policarpos Barbosas. Injustiça minha com Bucci: as polêmicas que entre nós prosperam vão do anódino ao supérfluo, orbitando em torno de ninharias, tecnicidades bacharelescas.

3) O meu jornal ideal é aquele que embrulha o peixe, molha, mas não rasga. Companheiro, vc acha mesmo que defender uma imprensa plural inclui colocar (mais) um canhão na mão de Sarneys, Delfins e Passarinhos? Conte à sua filha de 12 anos sobre a OBAN e depois pergunte se ela gostaria de te ver na companhia dessa galera medonha.

4) Você está certo sobre este ponto. Amei o meu epíteto: "contra-crítica chapa branca", é Gêmeos com ascendente em Gêmeos.

5) Seu nome no alto de um texto me faz pensar. Em dobro. Vc tentou relativizar a "dura", sim, ou talvez não tenha sido tão enfático em condená-la quanto a minha simplicidade de espírito careceria.

6) Estou aceitando parcerias públicas e privadas, vc talvez me compreenda, não tem sido fácil ganhar a vida neste nosso capitalismo de estado. A esquerda brazuca no pós-ditadura tinha (ainda tem) a faca e o queijo na mão, como teve a sua congênere italiana no pós-guerra, e o mesmo dilema moral: as cicatrizes do conflito armado de um lado e, de outro, a vontade de usufruir dos esquemas, de "fazer o que todo mundo faz", nas palavras imorredouras do Nosso Guia. Os compagni que não embarcaram num terrorismo equivocado, temporão e sanguinário, se lambuzaram na versão acomodatícia, com a conseqüente mafianização da vida social, política e econômica do país. Isso levou ao assassinato de Moro e Falcone, isso desagua em Berlusconi e na Lega Nord e agora... Battisti. Deve doer fundo na xenófoba alma peninsular ouvir o ministro brasileiro da Classificação Racial (outro dos seus impagáveis 'tags') afirmar que a justiça italiana não é confiável. Sendo assim, e se vc me permite, é melhor não perturbar demais sua conversão 'neocon' em campanhas revisionistas: colegas e aliados seus, antigos e atuais, poderiam ter constrangimentos na eventualidade do menor rasgo na Lei de Anistia. Cordiais saudações,

Missosso

cuspindo fogo

terça-feira, 21 de abril de 2009

o Deus quântico criou o universo, mas não o pode operar


Para o mundo da física, as teorias quânticas descrevem uma série de fenômenos bizarros, como partículas que desaparecem aqui e surgem acolá, ou que se comportam como onda e como partícula a depender da situação, “coisas” que são e não são ao mesmo tempo, etc.; já para a metafísica, as conseqüências são muito mais sérias: um suposto Demiurgo quântico até poderia ter criado o universo, mas não possuiria nenhum controle sobre a sua criatura.

A realidade é um devir contínuo ― como já tinha notado Heráclito ―, e um devir contínuo é um vir-a-ser-alguma-coisa; o que é, e como se determina esse vir-a-ser-alguma-coisa, é onde a porca torce a primeira espiral do rabo: ninguém pode saber com certeza o que vem a seguir, apenas medimos possibilidades disto ou daquilo acontecer. A cada momento o universo precisa refazer suas apostas e, como disse Mallarmé, nenhum lance de dados pode abolir o acaso.

Nada nos garante que o sol vai nascer amanhã, disse Hume, sacudindo Kant de seu sono dogmático. O MUNDO É FUNDAMENTAL E ABSOLUTAMENTE LIVRE PARA FAZER O QUE QUISER NA PRÓXIMA JOGADA. Einstein se revoltou: Deus não joga dados. A possibilidade “zero” de um evento não significa, no mundo quântico, que ele não possa acontecer; o corolário disto confirma Machado de Assis: TUDO pode acontecer.

Stephen Hawking, em sua busca por uma teoria que unificasse todas as forças da física (Theory of Everything), percebeu que um tal conjunto de axiomas seria “completo”, isto é, não possuiria um fora que o balizasse, um metanível que atestasse sua verdade ou falsidade ― violando o Teorema de Gödel.

Nem Deus possui a Equação de Tudo.

fotografemas




terça-feira, 14 de abril de 2009

EULE O LOBO

Por que razão vem à noite? Para poder cavar em paz e sem pressa, os barulhos da noite o escondem. Qual o motivo do buraco que cava? O buraco não tem motivo, apenas a ausência necessária para que ninguém na casa se julgue inteiro. Ele está dentro da casa. Como sei que está aqui e não escondido no mato? Eu que deixei entrar. É uma fera terrível, destruiu toda uma família de anões. Por que sei que é um lobo? Eu que o criei, desde a barriga da loba. Esperamos a polícia para quem precisa de polícia? Há uma arma, mas não há coragem para usá-la. Por que é que nunca soubemos desse quarto no subsolo? Ele foi lacrado para que, sobre os seus segredos, pudéssemos viver ao rés do chão. Como pode ter certeza de que há crianças na casa? Onde há crianças, há o medo dos lobos. Qual o motivo de os temermos tanto? Um cão pode voltar a ser lobo e vice versa, nós não, estamos condenados a ser uns os lobos dos outros. Então eu vi, ou sonhei que vi: a mulher se aproxima do bebê que chora, pega-o no colo e retira do seu pé um espinho, em seguida cuida do ferimento.


segunda-feira, 13 de abril de 2009

Post -Sonho: Lobo



O lobo vem à noite.
Nunca ninguém o vê, mas vê o buraco que ele deixa, cavado no chão, enorme, descomunal. O buraco chega num andar abaixo, uma espécie de subsolo que ninguém conhecia, mas que estava lá, enorme. Estranhamente, o buraco chega a um subsolo que não é exatamente desorganizado, mas é assustador, com suas pilastras imensas, seus tijolos aparentes malcuidados, sua escuridão.
Há uma arma na parede, mas ninguém se anima a esperar pelo monstro. Ele é muito forte, rápido e perigoso. É preciso estar pronto para enfrentá-lo sem dó. A polícia virá pegá-lo, enquanto ficamos escondidos, esperando, mas é inútil. Ele é esperto demais e nunca vem quando o esperam.
Ninguém o encontra.

sábado, 11 de abril de 2009

o caubói ao entardecer





Um retrato moral resulta mais ambíguo ao poente do que com o sol a pino. Por contraditório que possa parecer, nisto reside a licença poética e um dos vértices do multifacetado “Gran Torino” (2008), filme mais recente de Clint Eastwood, anunciado como o seu último trabalho de ator. Uma luz oblíqua costuma guiar os atos finais dos caubóis de Hollywood: nos westerns, caracteristicamente, este é um combate singular que acontece nos confins da cidade, ao cair da tarde ― fica com vantagem no duelo aquele que se colocar de costas para o crepúsculo.

“Gran Torino”, porém, enfrenta corajosamente as vicissitudes do crepúsculo, em particular os inevitáveis acertos de contas com o passado, o presente e o futuro. O filme começa e termina na morte, sem com isto redundar em fechamento exegético, nem acentuar demasiadamente o registro do trabalho de luto. Embora se preste a balanços de vida, de carreira, de posições políticas (o cineasta é um redneck, republicano e patriota de quatro costados), o plano narrativo não aceita soluções apaziguadoras: Dirty Harry 6 está na pista daquelas perigosas sínteses de que falava Hegel.

Walt Kowalski, veterano da Guerra da Coréia, viúvo que mora afastado dos filhos e netos num subúrbio de Detroit, é o proprietário de um Ford Gran Torino, modelo 1972. O carro pré-crise mundial do petróleo lembra tristemente a arrogância perdida no centenário da Ford, paradigma da indústria do século XX; somos levados a perfilar homologias históricas e biográficas do personagem numa arquitetura da degradação: o declínio físico a se desdobrar no esgarçamento dos laços familiares, que se espelha na decadência urbana de Detroit, metonímia do combalido setor automobilístico norte-americano, símbolo, por sua vez, do outono da superpotência mundial.

Como os irmãos Cohen em “Onde os fracos não têm vez” (2007), o Eastwood-diretor experimenta com a mistura de gêneros, no caso, o faroeste com o drama de tribunal. Na sala de espera da consulta médica, Kowalski finalmente entende: é um imigrante entre imigrantes, maverick ajustado socialmente, ex-combatente que enfrenta agora o tribunal interior da doença, da velhice e da memória. Neste processo ele recusa tanto a mediação religiosa como a reflexão melancólica; se escolhe, uma vez mais, a via da ação, não está em busca de outro punhado de dólares, mas de conferir sentido(s) à sua trajetória.

A conquista do Oeste mítico encenou a conquista do mundo: no corte rápido da edição ideológica, saía o vingador solitário e entrava o marine. Passagem de bastão que John Rambo realizaria, no imaginário da América e do mundo; afinal, supremacia se faz com guerras e guerras se fazem ultrapassando fronteiras éticas. Os filmes de tribunal representam, assim, um segundo tempo dialético do bang-bang: no momento em que a conduta vai ser escrutinizada pela Lei é que ela atinge a letra, ganha estatuto legal , portanto, social. Jean Genet dizia que era apenas um homem que roubava, depois de condenado, tornou-se um ladrão.

A América (do norte, bem entendido) se tornou o que é por acreditar nos princípios da Lei e da Civilização (ocidentais, bem entendido); a crise atual, ao atingir o núcleo duro do sistema, deixa de ser uma questão econômica e se torna também uma questão de modelo, de visão (e, mais ainda, de administração) do mundo. Esta é a condição pós-moderna descrita por Lyotard, falindo os laços de nacionalidade, as fidelidades étnicas e clânicas, em suma, as “grandes narrativas”, confiamos que a imagem fragmentária do cinema realize a façanha integradora, o terceiro tempo em que a pulsão forja a representação. Monco não é Rambo, Eastwood não é Schwarzenegger, mas o Gran Torino do filme é “verde”, como os carros que Obama deseja para a América.

Kowalski tem dificuldades com a nova ordem, mas não vai contra o inevitável de forma ingênua: não há mais dois exércitos marcando o mapa com vermelho e azul, o que temos é um território instável tomado por gangues. Os créditos descem com o caubói cavalgando sozinho rumo ao horizonte.

sábado, 4 de abril de 2009

quarta-feira, 1 de abril de 2009

DASDOIDA na pça do PA(i)TRIARCA

a convite da ZÁ PIETHA, a DASDOIDA desfila no 2º FASHION DOWN TOWN em março de 2009

segunda-feira, 30 de março de 2009

o que falta à verdade para ser dita


desdobramentos fugidios de um pequeno território livre:

nunca descobri o que eram as tais “conversas de adulto”,

até porque nunca conheci realmente um “adulto”,

as pessoas que conheço, com o passar do tempo, e quando têm sorte, apenas

envelhecem, como as frutas que, ao invés de amadurecer, apodrecem diretamente;

muito poucas pessoas se tornam melhores do que a criança que foram,

a maioria acaba prisioneira de algumas, ou de muitas, das manias que inventou,

deve ser por isso que nunca encontrei pessoalmente um “sábio”,

embora conheça gente que é especialista nas mais variadas coisas;

na melhor das hipóteses, chega-se a conhecer muito sobre um pedaço do mundo,

mas desconheço quem saiba viver; aliás, a vida é um daqueles temas em que todos

falam no escuro, parece que quanto mais importante um assunto é, mais se fala dele

e menos se sabe também ― mas é MUITO deselegante mencionar este fato

em conversas sociais; o pouco que aprendi sobre “ser adulto”, diz respeito a fingir

que se sabe o que se está fazendo, ou dizendo, e para onde se está indo, curiosamente,

o fato de ninguém saber nada beneficia mais os conservadores e hipócritas do que

aguça a necessidade de mudar
; quando guri, no caminho da escola volta e meia cruzava

com a louca do bairro, a Lurdinha da Fausta, dizia os meses de floração de cada

planta, nomeava as espécies de cambaxirra, os montes, os córregos, cão, gente ou gato,

como sabia, se não trabalhava como os adultos e não ia à escola como as crianças?

“eu pergunto”, respondeu-me

quarta-feira, 25 de março de 2009

domingo, 22 de março de 2009

OS 3 UMBIGOS DO SONHO



Um sujeito nunca é dizível por inteiro. Ou porque é atravessado por enredos, uma cacofonia de vozes, imagens, falas que o constituem (o Outro), ou porque a própria ideia de sujeito tenha sido tramada previamente na interdiscursividade, enovelando o sujeito do inconsciente com o sujeito da comunidade ― vozes, palavras e figuras dos outros; espécie de tecido germinativo que dá origem ao psiquismo e cujo cordão umbilical alimenta nossa vida imaginária. Na fronteira dos múltiplos ‘eus’ internos com esses pequenos outros (‘eus’ heteronômicos), urde-se um descentramento radical: o que sou não é dado por uma essência, uma substância, nem por uma ideologia própria ou alheia; trata-se menos das vertentes da identidade, psicológica ou grupal, e mais das condições fundantes do ser ― sou a partir do que me é alheio, do indeciso ente que me sonha, daquilo que, para mim como para os outros, dorme no mistério.

Uma obra de arte, como um sonho, nunca pode ser interpretada por inteiro. Ali onde uma representação se forma, ela nos escapa em parte. A arte do sonho trança as fibras do que se apresenta e do que se representa, retorta onde o inconsciente se entranha no corpo, o sonho funciona como sistema de trocas entre a noite e o dia, a biologia e a cultura, atividade e repouso, apropriação e sujeição, a vida e a morte, o sono e a vigília. O espaço onírico oscila entre estados do Eu e do não-Eu, à maneira de um conjunto de matriochkas que se incluíssem e excluíssem reciprocamente, como se a subjetividade, expandindo-se ao infinito, pudesse colapsar o fora da sua (oni) presença, permitindo ao objeto existir na interioridade e na distância, ao espaço conter seu negativo e ao tempo um fechamento sobre si. A tamanha violência o aparelho psíquico reage neoformando, remodelando o que era economia instintiva em pulsional: o delírio é este universo concentracionário em que todos e cada um são, foram, poderão ser... Deus.

O sonho é elaborado dentro, mas tem de se fechar fora, ele só conserva sua substância com o fora. O corpo do deus Osíris flutua despedaçado sobre o Nilo, Ísis e Néftis sopram vida aos 42 pedaços, menos um, o pênis, comido por um peixe: a morte como castração final da vida, mas também como sua condição. Na dimensão mítica, só ao preço de se tornar virtual é que o falo poderá sustentar a potência fecundante, nela, o externo é convocado a completar o interno, a série se completa pela ausência, etc., etc.. Na obscuridade do sonho nascem os híbridos sensação-pensamento, organismos feitos de memória-percepção-signo cujo umbigo (boca, olho, vagina, ânus) ameaça tudo devorar. Sabemos quando estamos acordados, o que nunca temos certeza é se estamos sonhando. Até onde podemos saber acerca do enigma do sonho?

“Mesmo nos sonhos mais bem interpretados, é freqüente ter de deixar um lugar nas sombras, porque, na interpretação, percebe-se que ali há um emaranhado de pensamentos do sonho que não se deixa desenredar, mas que tampouco dá outra contribuição ao conteúdo do sonho. É o umbigo do sonho, o lugar onde ele repousa no desconhecido. Os pensamentos do sonho a que se tem acesso pela interpretação têm de permanecer, de forma geral, sem qualquer fechamento e partir em todas as direções na embaralhada rede de nosso mundo de pensamentos. De um lugar mais denso dessa rede surge o desejo do sonho como o cogumelo de seu micélio.” (Sigmund Freud).

Já neste primeiro umbigo, psicossomático, somos confrontados pelo impensável universal, material submetido ao recalque primordial, inacessível ao pensamento e à linguagem; no umbigo interpsíquico também o sentido deriva de uma formação arcaica nodal irrepresentável, nesta outra matriz onírica o campo é compartilhado, espaço onde circula um pensamento do sonho comum a vários sonhadores. Mas sabemos que os sonhos podem ultrapassar ainda este nível da telepatia grupal, do sonho coletivo: num terceiro bulbo do sonho se articulam o rito, o mito e a profecia.

Os indígenas da América inventaram diversos filtros de sonhos, para deixar passar os sonhos e barrar os pesadelos, manter os mortos longe dos vivos que dormem e afastar os espíritos nocivos dos lugares de purificação e cura; p.ex., os xamãs dos Algonquinos (Canadá) instalam teias de couro amarradas em ramos curvos, com penas colocadas a intervalos regulares em torno de nós ou contas. Dos umbigos do sonho emergem os meta-níveis: assim é o mito que vem interpretar o sonho, mito que é signo de uma outra língua, um signo de signo. Os índios já sabiam que são estes nós mais densos que revelam os sentidos ocultos da vida humana; para eles, os sonhos também são filtros de mitos.


quinta-feira, 19 de março de 2009

psigotica

agradar uma fêmea é como pegar um sapo na mão





Sônia fazia de conta que não estava casada com Vera, vivia atrás de qualquer balada, até bingo beneficente ou quermesse de paróquia serviam; em tais e tantas orgias andava, que a vizinhança até já tinha cansado de falar mal. De começo, ainda vá que respeitou dia de semana, depois a coisa desandou, o sábado começava na quinta e findava na terça; daí pra frente, tudo virou feriado e os dias da semana já não bastaram pra tantos convites. Sônia causava. Vestida de longo, exagerando no lamê e no strass, ela reinava nos bailes do Andrade, deslumbrava nas matinês da Sociedade Operária, arrasava na festa do Havaí do clube Água Verde e, das domingueiras do Tiradentes, só voltava segunda de manhã, maquiagem desfeita, meias-calça rotas, sapato de salto quatorze na mão. Vera ainda lhe fazia um café forte antes de sair para o serviço.

Vera sempre fumando, somítica de tão magrinha. Ralava horrores na hora extra para pagar faturas de cartão, sua vida era uma consumição: levantar papagaios, cobrir empréstimos, discutir com gerente de banco pra aumentar o limite do especial, parcelar dívidas; vivia numa dobadoura atrás de agiotas e factorings, tudo em nome de manter o padrão de vida da casa. Como era assessora de deputado estadual, trabalhava de verdade enquanto o “doutor” bonecão deputava ― em todos os sentidos. Eram dois celulares e um nextel tocando o dia todo, com requisições deste, pedido de emprego praquele, associações disto e daquilo buzinando no ouvido dela. Seu único luxo era o cigarro ― dois maços de Carlton prateado por dia. Além disso, fazia bicos de repórter freelance pra uma revista de aviação e pegava uns trocados testando remédios novos para uma indústria farmacêutica. Sônia embirrava com este “trampo de cobaia”, como costumava dizer.

Aline, sobrinha de Vera, morava com elas na casa de dois cômodos, própria, único bem de família que o pai cachaceiro de Sônia não conseguiu beber. A moça era autista, a mãe não a quis levar para Camocim quando se casou pela segunda vez; a avó era falecida e sobrou pra Vera criar a menina, que dava trabalheira por dez. Quem cuidava mesmo era Sônia, já que Vera saía pra trabalhar e também não tinha muita paciência pra essas coisas. Aline não falava, não comia sozinha, não se vestia sem ajuda, se pelava de medo de ir em médico e dentista só lhe mexia na boca com ela debaixo de anestesia geral. Até as necessidades Sônia tinha de lhe ajudar a limpar. Seu único vício era comer os fósforos queimados que Vera espalhava pelos cinzeiros da casa. Problemas havia, mas eram uma família.

Até que P. chegou.

sábado, 14 de março de 2009

Todo Cuidado é Pouco com os “Operadores Simbólicos”!


ilustrador: Bruno Urbanavicius
No meio de uma entrevista a um repórter francês, na maior cara lavada, John Kenneth Galbraith saiu-se com esta: “no atual estágio da tecnoestrutura capitalista, uma empresa como a GM não precisa buscar primordialmente a maximização dos seus lucros”. Passados 39 anos e com a tsunami econômico-financeira devastando o planeta, incluindo a própria General Motors, as palavras do conselheiro de John Kennedy e professor de Harvard não soam irônicas e/ou proféticas ― são (e eram) mentira pura. Aquele tipo de bravata arrogante de quem deitou banca demais, falação demais, para um monte de baba-ovos acríticos. Nos anos 60-70, J.K. Galbraith era “o” cara: dava pitaco sobre moda, economia, política, comportamento e até, se bobeassem, na escalação do meio de campo do Olaria.

Pulando para os 80, um outro guru da economia sacou do colete a “Terceira Onda” da civilização humana; na esteira da Revolução Agrícola e da Revolução Industrial, Alvin Toffler prognosticava a Era da Informação, em que predominariam as empresas de serviços e os profissionais que ele chamava de “operadores simbólicos”. Quem seriam esses obreiros do virtual? Nada de tão novo assim: aquele tipo de gente que não fabrica um prego, não aperta uma arruela etrusca, nem é capaz de compor um pagodinho em hebraico clássico, profissionais cujo trabalho consiste primariamente em operações abstratas realizadas sobre bases de dados simbólicos e que, acrescentemos, se c... um monte para as conseqüências práticas das mandracarias que fazem.

Ao contrário da patranha galbraitiana, a ideia de Toffler faz algum sentido, muito embora uma definição tão ampla acabe por incluir quase qualquer atividade humana, por exemplo, o projetista de uma sonda espacial, o desenvolvedor de Linux, o estilista de uma grife de alta costura, o anotador de jogo do bicho e o menino da pipa que sinaliza a polícia para o traficante, estão manipulando códigos, signos e meta-linguagens com inúmeras camadas de sentidos e vários graus de abstração ― o que os qualifica, portanto, como “operadores simbólicos”. Duas categorias destes profissionais etéreos, no entanto, vêm chamando a atenção hoje em dia, o “povo do mercado” e os “formadores de opinião”. Deles aguardamos as mais deslavadas mistificações.

Os tratados de alquimia diziam que o que está em cima é como o que está em baixo, tal como o que parece à direita, pode estar à esquerda e vice versa. Um presidente da federação dos bancos (concessão pública), que pega dinheiro do governo e empresta a juros 10 vezes maiores e não quer ser chamado de sacana, pode muito bem ser um dirigente esquerdista ao molde soviético. Já um sindicalista que gere um fundo de pensão de uma mega estatal, na verdade é um big player... do mercado! Diante do atual estouro das Bolsas, o povo do mercado vai insistir em potocas como “o estouro de bolhas especulativas faz parte da dinâmica capitalista”, “as bolhas são cíclicas e geram riqueza no processo”, ou ainda, “o capitalismo é melhor que suas alternativas porque sobreviveu a elas” e assim por diante. Já os ideólogos da Bolha podem encampar a tese de que houve no Brasil (e já estaria encerrada) uma tal de “ditabranda” militar.

Ou seja, a quartelada dos milicos brazucas teria sido soft comparada com nossos hermanos (hahahaha). A Bolha (da fama) e a Bolsa (de valores?) estão com problemas de, digamos, densidade ontológica ― todo cuidado é pouco.

domingo, 8 de março de 2009

quase-ensaio sobre Khôra, o informe

ilustração de Bruno Urbanavicius

Perde-se na noite dos tempos a origem da noção de que participamos de dois mundos, um, material e captado pelos sentidos, outro, sutil e apenas acessível ao espírito. Platão entendia que no primeiro deles vivem os seres visíveis e, portanto, sujeitos às vicissitudes do nascimento e da morte, chamados por ele de Cópias (mimemas); estes, não passam de sombras dos seres ideais e imutáveis que vivem no mundo eterno dos Modelos (paradeigmatos).

O mesmo filósofo, porém, nos advertiu da existência de um terceiro gênero (triton genos) de seres, vivendo num mundo situado entre o espiritual superior e o reino de corrupção da matéria, ou entre o que é imediatamente percebido pelos sentidos e o que pede a mediação do inteligível ― uma realidade entre realidades, mas que não é estranha a nenhuma das outras.

A Khôra pode ser entendida como um lugar (topos), uma matriz, um receptáculo de marcas evanescentes ― diria que é um não-lugar que dá lugar e “coisidade” aos outros lugares e coisas. Não se pode compará-la a um substrato, um campo, tampouco a um espaço: Khôra é onde se assentam sítios e situações, podemos supô-la sem que seja representável (muito embora seja condição de toda representação). Ela não existe, mas é.

Estas considerações trazem associações com a comunicação, na qual, até mesmo em meio às metáforas inertes das falas ordinárias, intervém a autonomia arbitrária do significante. Como (re)produzir uma tal superfície virgem de recepção e ressonância, onde localizar este terceiro que espreita o discurso na relação incerta entre fala e linguagem? A tentação aqui é tornar homólogos o suporte pictográfico da representação e a primeiridade originária do informe, cuja liberdade divina não conhece limites.

O informe (amorphon) não guarda nada do que recebe e, por isso, tem de ser constantemente reinstaurado. Sendo o lugar dos lugares, Khôra se manifesta como “o que vem ao falar”, vale dizer, como região em que se inscrevem, ou ainda, o aspecto que tomam as coisas quando são faladas num dado local e momento. É nas sensações confusas que trazemos de quando a memória não alcança, que a linguagem reencontra a fonte e a força, sua figura e seu nome.

Espécie invisível, porta-traços destituído de propriedades, não atingimos Khôra mediados pela razão (logos), nem pela via direta da experiência estética, a alternativa mito-poética; é preciso um tipo de raciocínio híbrido (logismoi nothoi), um pensamento que tanto carece de lucidez, quanto se abre à profecia. Tamanha negatividade anacrônica ela comporta que mal lhe podemos dar crédito: seu discurso inaudível, as figuras (schemata) que engendra, se anunciam/enunciam como um sonho.