domingo, 10 de outubro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 5

Aldeia dos Quatro Montes

(se desejar ler os capítulos anteriores: Cap.01, Cap.02, Cap.03, Cap.04)



5



Salústrio olhava em direcção ao filho, Pedro, como se ele fosse transparente, como se não estivesse ali, à sua frente.
Percebendo a situação, o Senhor Director, mandou-se para a frente, abriu os braços e engolfou neles o rapaz. Rapaz, como quem diz, pois Pedro já passara bem dos trinta anos.
- Então, meu caro Pedro! Folgo em vê-lo por 4 Montes. Há um bom par de anos que não nos honrava com a sua ilustre visita.
Salústrio tentou ver se no carro estava mais alguém…
Pedro soltou-se do abraço do Senhor Director e andou dois passos…
Olhou o pai, olhos nos olhos…
Salústrio, finalmente, libertou-se da paralisia que o acometera e, saindo do balcão, abraçou o filho.
O Senhor Director decidiu sair de cena, fechando atrás de si a porta do Café ArcoBotante.
 Ao passar pelo carro, por sinal uma bela máquina, reparou nas luzes acesas… Ainda olhou para dentro do café mas aqueles dois tinham mais que fazer… Abriu a porta, e ao ouvir o motor, ficou com a certeza de que Pedro estava tão nervoso como o pai. Nem tinha parado o carro.
.......
Pedro era o filho mais velho de Salústrio. Já fizera trinta e seis anos. Com grande sacrifício do pai, tinha tirado o curso de engenharia civil, na capital. Brilhante aluno, arranjara emprego com facilidade logo que teve o canudo. Fora trabalhar para uma grande empresa de construção civil, que tinha projectos em vários países. Depois de um ano de tarimba, fora enviado para Angola, onde rapidamente singrou nos quadros da firma. Foi lá que conheceu a Isabel, sua colega na empresa mas com formação na área de gestão.
Para além da inegável competência técnica, Pedro fora atraído pelo sorriso franco de Isabel. Os colegas diziam que essa treta do sorriso era para disfarçar…
- A gaja é mas é… boa como o milho!
Pedro nunca na vida teria imaginado que se apaixonaria, perdidamente, por uma pessoa de raça diferente da sua… Mas a vida é como é…
Quando, num dos telefonemas que fazia amiudadas vezes, contou ao pai que tinha começado a namorar percebeu, pela reacção dele, que iria ter um problema…
- Ó rapaz, já não era sem tempo… Mas, vê lá! Não te deixes agarrar por nenhuma lambisgóia dessas daí!
Quando conseguiu tirar férias, trouxe a Isabel a Portugal, até porque ela tinha família na capital. Uma das irmãs estava a estudar medicina.
Cada vez que se recorda da situação, Pedro fica furibundo. O pai, quando viu que Isabel era negra, até disfarçou bem… Mas, quando o apanhou a sós, perguntou-lhe se aquilo era a sério e como Pedro lhe respondera que estavam a pensar em casar o mais breve possível, o pai só lhe dissera:
- Pois… Espero que sejas muito feliz! Mas, na minha casa essa preta não volta a entrar! E não te atrevas sequer a convidar-me para o alambamento!
O senhor Salústrio tinha feito a guerra em Angola e conhecia o linguajar da terra.
A partir daí, Pedro tinha-se afastado do pai.
Casara com Isabel e decidiram ficar a viver em Angola…
…….
Quem passasse em frente ao ArcoBotante estranharia o facto de, apesar da hora, as luzes já estarem apagadas e os cortinados estarem corridos… O facto de um carro estranho estar estacionado, bem em frente à porta, levaria os passantes a concluir que algo fora do vulgar estava a acontecer… O letreiro luminoso, piscando, era o único sinal de normalidade.
No andar de cima, sentados à mesa da sala de jantar, Salústrio e Pedro comiam uns ovos mexidos… Não pareciam dar grande importância à comida.
- Pai, estava a pensar ficar um tempo cá em casa…
- Fazes bem… Olha… diz-me, como é que aconteceu isso? Apareceu, assim, de repente?
- Sabe como é… ela começou a sentir que algo não estava bem em Abril. Foi a um ginecologista e ele mandou-a para Joanesburgo, para fazer uns exames e pronto… Quando soubemos do resultado, ela foi-se abaixo… Foi o princípio do fim. Acabou-se o sofrimento no dia 17 de Setembro.
Pedro e o pai ficaram quedos… O garfo de Pedro mexia nos ovos, puxando-os para um lado, depois para o outro. Salústrio nem sabia o que dizer, nem o que fazer… Levantou-se e foi à cozinha. Quando voltou, trazia na mão uma pavia, bem grande, cheirosa… Abriu a mão de Pedro e colocou-a lá.
Pedro olhou para aquele fruto de que tanto gostava, inalou o aroma tão especial, acariciou a pele suave, passando os dedos lentamente…
Sempre se espantara com a cor das pavias, aqueles tons rosa e avermelhados… E o sabor…
Semi-cerrando os olhos, deu a primeira dentada.


(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

sábado, 9 de outubro de 2010

A Lenda da Maria Sangrenta



Naquela altura Anápolis mal chegaria aos trinta mil habitantes, mas tinha aeroporto, ou melhor, havia lá uma pista asfaltada onde pousava um bimotor por semana. O Presidente ia para a Amazônia com escala em Goiânia, o mau tempo forçou o pouso na cidade, onde, cem anos antes, Da. Ana das Dores perdera uma mula com a imagem de Santana. Da fazenda das Antas fez-se a cidade das Anas, como ficou cristãmente batizada.

A excitação foi geral, o Presidente fez comício, botou falação comprida e ali foi que assinou a declaração em que dizia ao povo que a capital seria transferida para a região central do país. Lindomar gostou logo daquele homem fino de rosto e de maneiras, que magnetizava a todos falando de um país grande e próspero que viria; o sobrenome do homem é que lhe não entrava na cabeça: ouvia “cu-de-chefe”, mas isso não era nome de gente.

O servente de pedreiro Lindomar não pensou duas vezes, assim que os empreitas começaram a recrutar, ele se mandou com mulher e três filhos para construir Brasília. Em novembro de 1956 ele estava lá quando começaram a esburacar as fundações do Brasília Palace Hotel e do Palácio da Alvorada. Nos próximos três anos e meio de insanidade épica, ele ajudaria a erguer aquelas caixas de vidro, mármore e concreto armado com seixos de quartzito.

Antes disso, porém, ele liderou uma revolta dos candangos no canteiro de obras do palácio; quebraram barracões da empreiteira e até derrubaram o “Catetinho”, galpão rústico de jacarandá e peroba do campo onde Juscelino se hospedava nas visitas à futura sede do Poder Executivo. A peãozada recusou-se a comer a carne bichada do rango. Os patrões responderam estralando o reio: mandaram dar uma coça nos líderes da rebelião, vitimando o amigo Paraibinha. Lindomar passou a freqüentar a casa da viúva.

Construir a cidade a partir do nada, no meio daquele cerrado seco e calorento, foi um desafio ao gênio da raça; o Brasil mostrava ao mundo um estilo próprio e único, amálgama do engenho e da arte de um povo voltado para a modernidade. As superquadras emolduradas por largas avenidas desembocando em rotatórias, a esplanada dos ministérios com a barragem do Paranoá ao fundo, a arquitetura de colossais vãos e curvas, os pilares de extrema leveza, os brises de fibro-concreto, os granitos, o elemento vazado dos combogós, tudo lhe dizia que virara um gigante. Vieram mais três filhos.

Como na vida ninguém passa sem aperreio, a viúva do Paraibinha, agora convertida em amante, emprenhou. Arrelia danada. O parto foi uma agonia, a criança, um macho, nasceu bem, mas a mãe quase morreu de uma hemorragia incontrolável. Uma vizinha amamentou o bebê enquanto a mãe se recuperava; Lindomar ia todos os dias visitá-los em Taguatinga. Até que Feliciana, a esposa traída, apareceu na porta do barraco, louca, virada no Coiso, ameaçando o marido, a amásia e a criança. Um pampeiro. Na saída, ainda chutou o cachorrinho cotó da outra.

Pressionado pela patroa, Lindomar mijou pra trás, negou-se a registrar a criança, ofereceu dinheiro e passagem para que a viúva deixasse o Distrito Federal. Ela recusou. Batizou o menino com o nome de Omar, homenagem ao pai fujão e lembrança perene de que, para ela e o filho, a vida nada tinha de linda. Mudou-se para o Rio de Janeiro, foi morar na Rocinha, no puxadinho do barraco de um irmão. Ele se tornou um pai exemplar para os filhos legítimos, conseguiu formar advogada a mais nova, Guiomar, que alcançaria altos cargos na Secretaria de Segurança, na Eletronorte e no ministério de Minas e Energia.

A ascensão da caçula tirou o pé de todos da lama, após trinta anos de sacrifícios a família deixou a cidade-satélite do Guará. Lindomar nunca mais soube notícias do filho, embora Omar freqüentasse a mídia carioca e nacional, traficante conhecido pela alcunha de Mazinho Biluca. Mazinho, implacável nos “negócios”, era um bom filho: instalou a mãe na cobertura de um prédio na favela, botou deque e piscina na varanda, ofurô, TV tela plana, piso de porcelanato e acabamento com pintura texturizada. Namorava Maria da Penha, a popozuda do pedaço. Vidão.

Biluca tinha o costume de pular a cerca, bandido quase nunca é homem de uma mulher só. Acontece que ele passou do ponto e catou a meia-irmã falsa loira da Maria, que, inconformada, resolveu se vingar do casalzinho. Maria era popozuda e linda, mas louca; entregou a fita para os traficantes rivais, molezinha, eles se encontravam fora da favela num apê de cinema que o safado comprara na Barra da Tijuca. Fez questão de acompanhar toda a operação: a tocaia, o julgamento dos chefões no alto do morro, o esculacho dos matadores e a execução de ambos com requintes de crueldade.

Os assassinos deixaram os pertences do Mazinho com Maria: um molho de chaves, o celular, um patuá e a automática. Desvairada, ela saiu a esmo, vagando horas a fio pelos dédalos da favela; chegando ao asfalto, foi tomada por uma firme resolução: queria conhecer o ninho de amor em que a traição se consumara. Pegou o lotação para a Barra. O apartamento era de um luxo delirante, os quadros rodavam à volta dela, as cortinas, os sofás, as luminárias; sufocou com todo aquele chiquê de uma vida estofada que não lhe tinha cabido. Deixou-se cair na cama redonda do quarto, chorava de soluçar.

O espelho, que tomava todo o teto do quarto, refletia cenas tórridas de sexo dos amantes mortos em alternância confusa com a imagem de uma mulher abandonada; como que acompanhava à distância seus próprios atos. Alguns dos livros mais antigos sobre a construção de Brasília trazem fotos invertidas, já que os primeiros registros foram feitos com filmes próprios para slide; da mesma forma, Maria enxergava aquela mulher lá no alto apanhar na bolsa uma arma, ficar de pé sobre a cama e colocar o cano na boca antes de estourar os miolos. A última coisa que viu foi o sangue salpicando o espelho.

O apartamento passou sete anos fechado. Nas noites de lua nova, corriam histórias de vizinhos sobre horríveis e inarticulados gritos vindos do quarto da Maria Sangrenta. Até que uma família se mudou para lá, um lobista de Brasília com a segunda mulher e o filho pequeno. A rádio-pião do condomínio logo noticiava que ele tinha sido pivô de um escândalo recente de intermediações fraudulentas na Controladoria Geral da União. Mudados às pressas, os novos condôminos se instalaram no novo lar sem reformas minuciosas, reservando o quarto do espelho manchado para acomodar o excedente do depósito. Proibiram o menino de freqüentar o cômodo.

Mas criança, já viu, proibiu, tentou. Lindomarzinho, xará do avô, buscava um boneco encaixotado do Ben Dez na ala proibida de seu novo castelo; os pais tinham ido buscar as compras de supermercado na garagem, era um sábado de folga da empregada. Deparou-se com o espelho que emanava uma luz baça, curioso, subiu numa pilha de caixas. Diz uma versão horripilante que o menino foi pego pela alma atormentada da Maria Sangrenta, que o escangotou até lhe quebrar o pescoço. O certo é que a partir daqui começa um mistério que o inquérito policial nunca conseguiu resolver: nas roupas da vítima foi encontrado o sangue de uma mulher.

Lindomar soube da notícia em Brasília, o antigo pedreiro não suportou o acúmulo deste golpe à dolorosa perda da indicação ao Ministério das Cidades pela filha Guiomar. Morreu de enfarte numa idade avançada que ele mesmo desconhecia; a última coisa que ouviu foi o neto de sete anos chamando por ele enquanto caía no abismo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O Retorno


Sem que se perceba
retornam
lembranças
jeitos
gestos

o edifício construído
desfeito
tijolo
por
tijolo
revela seu alicerce

a infância volta devagarinho
anunciando
o inverno

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 4

Aldeia dos Quatro Montes

(se desejar ler os capítulos anterior: Cap.01, Cap.02, Cap.03)

4


- Ó Maria… Maria… Vai-me tirar aqueles figos cá para dentro. Não demora muito e está para aí a chover. Ó rapariga, mexe-te! Catancho… Eu, na tua idade…
A Ti Joaquina continuou a atazanar a desgraçada da moça, até que os figos estivessem todos resguardados. Ainda a Maria não tinha recuperado o fôlego e as primeiras pingas começavam a bater na janela que dava para o quintal da Pensão Moderna.
A chuva, de pingas grossas, caía forte. Maria olhou para o céu, carregado de nuvens escuras e baixas que corriam empurradas pelo vento. Bem falta fazia esta chuvada!
- Maria!
- Já lá vou, Madrinha.
A Pensão Moderna era o tem-tudo de 4 Montes. Tinha quartos para hóspedes, sala de refeições, mercearia, café e tinha a Ti Joaquina.
Mulher dos seus cinquenta e tal anos, viúva, sem criação, coisa que a deixara marcada para a vida. Compensava essa falta com dedicação e amor à sua casa, a Pensão Moderna.
Ganhara a casa com o casamento. Fora para lá trabalhar com doze anos, como ajudante para todo o serviço. O Senhor António enrabichara-se pela mocita e ao ela fazer quinze anos já tinham dado o nó, para escândalo de toda a gente. Nunca tal se vira… Um fedelho dar a volta à cabeça de um homem que tinha idade para ser avô dela… O casamento não durou muito que o senhor António era homem de se tratar bem… Boa comida, boa pinga, deu no que deu. As más línguas de 4 Montes disseram, à época, que se não fora a Joaquina, o homem durava mais uns bons anos. O facto de ter morrido com uma apoplexia e ter sido encontrado na cama quase desnudo tinha ajudado bastante a alimentar esta versão…
Há trinta anos que a Ti Joaquina tomara conta da Pensão que, na altura, não passava de uma casa de hóspedes, com os seus seis quartos, e uma sala de jantar pequenita.
Poupada como era, a Ti Joaquina, que tinha tino para o negócio e era trabalhadeira, transformou aquilo que herdara nesta bela Pensão Moderna.
- Que me queria, Madrinha?
- Vai lá acima preparar os dois quartos da ponta para uns senhores que devem estar a chegar… Despacha-te que, depois, preciso de ti na cozinha! Está quase na hora de começar a tratar do jantar.
- Já me esquecia… O Senhor Doutor Juiz mandou perguntar se a Madrinha lhe tinha conseguido arranjar as pavias…
- Ó diacho… Não é que me esqueci! O Manel prometeu que mas trazia amanhã… Olha, antes de tratares dos quartos, pega aí no telefone e liga lá para casa a dizer que pode cá passar amanhã, pela hora do almoço. Raio de cabeça a minha…
Ao balcão estavam dois clientes que queriam meter o Euromilhões.
- A ver se é desta que me toca a sorte… Bem jeito me davam os 100 milhões! Ti Joaquina se me sai o jackpot prometo que lhe faço um agrado! Olhe, dou-lhe um carro…
- Ó homem de Deus! E para que é que eu queria um carro? Se até hoje nunca precisei disso, ia ser agora que me iam ver atrás do volante… Tenha juizinho! Olhe são 10 euros… Esta semana anda toda a gente à procura da fortuna!
- Madrinha, o Senhor Doutor manda perguntar o que tem para o almoço de amanhã?
Maria lá voltou ao telefone com a resposta, enquanto a Ti Joaquina ia servindo os clientes. Com não parasse a chuva e o vento, foram ficando ao balcão.
- O senhor Doutor Juiz pede para lhe reservar uma mesa para dois para o meio-dia.
- Para dois? Deverá ser para ele e para aquela senhora… Guarda aquela mesa, junto à janela que dá para o quintal. Ó rapariga vai lá arranjar os quartos!
Na Rua dos Prazeres acenderam-se os candeeiros da iluminação pública. A água da chuva quase galgava os passeios. Estava aí o Outono…
…....
O Senhor Director estava ao balcão do ArcoBotante.
- Pois é Senhor Director… É como lhe digo. Isto está cada vez pior! Não há gente e não havendo gente… não há movimento. É uma pasmaceira completa! Veja lá o senhor quantos jovens não saíram de 4 Montes nos últimos anos? Uma brutalidade…
- O Senhor Salústrio há-de convir que em 4 Montes não se podem criar empregos em quantidade suficiente para fixar toda a juventude… O que nos falta é quem tenha capacidade de investimento. É necessário…
Parou um carro em frente ao café, interrompendo a conversa. Por detrás dos vidros carregados de chuva tentaram perceber de quem se tratava…
Quando a porta do café se abriu, Salústrio ficou que nem uma estátua, lívido e paralisado.
O Senhor Director levantou-se…
- Boa tarde, Pai.


(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

sábado, 2 de outubro de 2010

A Mansão dos Meninos Imaginários

― Secretário... sente-se por favor, fizemos uma edição dos vídeos da menina, hãm... são os trechos mais... polêmicos, os mais sensíveis, por assim dizer, para um dos carros-chefe do governador: a reformulação da Secretaria do Menor...

― Caralho Proença, o governador me comendo o rabo, essa bosta de vídeo bombando no twitter, a reeleição em primeiro turno perigando, como é que você acha que o homem tá, hem? Quem pôs banda larga nessa porra de abrigo?

― Foi uma doação dos rotarianos do bairro... as crianças é que criaram a conta, bem... já tiramos tudo do ar, o problema são os virais rolando nas redes sociais...

― Rede social de cu é rola, Proença!... Um puta estrago desses na reta final da campanha! Vamos ter que achar nessa merda daí uma saída, mandar para o marqueteiro da campanha aprovar... O governador tem coletiva de imprensa logo mais à noite, que cacete!

― Bem, vamos assistir neste aparelho... ah, não se preocupe, a sala passou por varredura...

∞

“A Daiane dá saltos bem altos, eu sou a Daiane dançando, levanto a perna, requebro, dou pulos e cambotas, fazendo piruetas pelo ar e o mundo todo aplaudindo de olhos arregalados; ela é a menina mais bonita do mundo porque ela não é só uma campeã olímpica, porque ela é também Miss Universo, a mais linda de todo sempre; então, quando ela já ganhou a medalha de ouro mais o prêmio de um milhão de dólares, ela vai dar o maior de todos os saltos mortais de todos os tempos, a platéia fica com medo do que vai acontecer, ran-tan-tan-tan, são os tambores tocando no maior estádio do mundo, que nem no circo, e a Daiane voa muito alto, tão alto que ninguém sabe como ela vai descer, e então vem um menino muito bonito, igual aquele do “Esqueceram de Mim”, e pega ela voando e leva ela no trapézio para junto do pai e da mãe dele, que são também os donos do circo, e eu vou junto com eles viajando pelo mundo afora, deixando as pessoas muito admiradas na Europa e em Nova Iorque. Nós somos muito felizes e famosos em Hollywood também.”

“Agora, voltei a me chamar Rayane, que é meu nome de verdade; é que antes mudaram meu nome para Maria Eugênia, um nome feio e de gente velha, tenho 9 anos e estou no segundo ano do fundamental, não gostei que mudaram meu nome, também não achei bom quando me levaram, prefiro morar aqui: já conheço os monitores, a tia Neide da cozinha, as coordenadoras, o diretor; prefiro morar no abrigo, todos os meus amigos são daqui, do Abrigo Geneton Ilaci. A gente vem pra cá quando deixa de ser criancinha-bebê, daí ninguém mais quer adotar nós e falam pra gente que agora nossa família é o abrigo, só vamos sair quando ficar de maior; outra coisa que falam é que quem faz coisa que não deve vai parar na Fundação Casa, a FEBEM, lá é muito podreira, só tem meninos bem ruins que apanham muito dos monitores. A gente chama mesmo é de Fundação Casa do Capeta. Eu estou no Geneton porque meus pais morreram queimados no barraco onde a gente morava; o Elias, um menino mais velho, morava lá também na favela do Jaguaré e disse que os ricos quando vão fazer os condomínios deles mandam queimar as casas dos pobres. O Elias perdeu a mãe nesse incêndio, do pai ele nunca soube.”

“Tem uns tio bonzinho que sempre aparecem no Dia das Crianças e no Natal, eles dá presente pra nós; foram eles que botaram computador e agora tem Cartoon e Discovery Kids na nossa TV, mas os monitores só deixam a gente ver 2 horas por dia, eles são muito chatos, eles tá sempre dizendo: ‘tem coisa que pode e tem coisa que não pode’. Não pode é o que eles mais falam; criança não pode quase nada, mas eles fica assistindo filme a noite toda, que eu sei. O que eu mais gosto de ver no Cartoon é a Mansão Foster para Amigos Imaginários, a mansão é que nem o Geneton, o senhor Coelho e a Madame Foster recolhem os amigos imaginários quando as crianças abandonam eles ― nunca que eu vou abandonar a Daiane, ela é a minha melhor amiga. Lá na escola, as outra menina me zoa, elas não brinca comigo no recreio, nem convida para as festa delas; na escola tem os ‘populares’ e o resto, quem não é popular chamam de ‘os FEBEM’, mesmo que não seja do abrigo. Só não dizem na cara porque têm medo de apanhar, têm medo de nós, como se a gente fosse tudo bandido; as meninas da minha classe só me dão tchauzinho na saída, quando os pais buscam elas e eu estou entrando na perua do Geneton. Fazem só pra chatear, como dizendo: ‘agora eu vou pra minha casa, e você?’”

“Alguns meninos e meninas daqui tem mãe na prisão, todos sonham que ela vai voltar e tirar eles daqui; a mulher que me levou, Dona Mércia, disse que ia me levar para morar num apartamento grande, me chamava de filha, e que ia ter um quarto só pra mim e até ia ganhar um Gameboy; acreditei nela, todo mundo dizia que era uma chance na vida. Mas não foi nada do que ela falou, ela e só reclamava comigo: que não como direito, que não arrumo o quarto, até me levaram numa pissicóloga para ela tirar a Daiane de mim. Essa bruxa tava sempre gritando, me chamando de louca, dizia que eu não podia ficar falando sozinha, que fazia xixi na cama toda hora ― isso é vida? Daí que eu penso na história de ter uma chance, eu já tive uma chance na vida: ninguém sabe como não morri queimada junto com meus pais, se eu fosse a Daiane acho que eu tinha salvado eles; fico triste quando penso nisso, fico triste também porque aquela mulher mudou meu nome e botou o da mãe dela que tinha morrido. É ruim ser devolvida, parece que fui eu que aprontei e que não sirvo pra ninguém. Por isso que gosto tanto de ver a Daiane dos Santos na TV, ela é tão dez!, ela é uma campeã de verdade, admiro muito ela porque ela continua, dá aquele tuíste carpado mesmo sentindo dor.”

Os adultos só mandam, mandam em tudo, mandam nas coisa e nas palavra, por exemplo, quando a gente faz merda aqui no Geneton, primeiro os monitores dão bronca e depois vem o diretor e dá um castigo de verdade. Ser criança é difícil por causa dos adultos, ser criança demora muito; aprendi que primeiro a gente precisa saber quem manda nas coisas, para depois fingir que acredita no que dizem. Na escola nunca falam: ‘você está de castigo’, mas você está, fica fora da classe sem poder brincar, só esperando a aula acabar; você tá de castigo, mas eles dizem que não é bem assim. O problema de gente grande é que eles é só grande, não é melhor que nós, os pequeno, a gente vira grande quando esquece como é ser criança.”


domingo, 26 de setembro de 2010

Aldeia dos Quatro Montes - Cap. 3

Aldeia dos Quatro Montes

(se desejar ler os capítulos anteriores: Cap.01, Cap.02)

3

Ana Luísa e António Augusto caminhavam, lado a lado, pela Rua dos Prazeres. Aproveitavam o sol morno de início de Outono…
- Personagem interessante o Senhor Director… Aquela vénia apanhou-me de surpresa.
- É uma pessoa fora do comum, nunca imaginei encontrar num lugarejo como este alguém como ele. Sabe que é um apreciador de música? A colecção de discos que tem em casa é assombrosa!
- Já percebo porque tem tanta consideração e estima por ele…
- Sabe, Ana Luísa, quando soube que iria ocupar a vaga de juiz em 4 Montes, pensei que iria estar desterrado, afastado do mundo, durante uns longos cinco anos…
- Mas quem o oiça falar percebe que adora esta terra… Ou estou enganada?
- Não, não… Tem toda a razão. Sabe… Aos poucos, fui dando valor a esta tranquilidade, a este ritmo de vida em que tenho tempo para pensar… Em que tenho tempo para olhar uma paisagem e, se me der na gana, sentar-me numa pedra e ficar ali a ver… Sabe que há lugares muito bonitos bem perto da Vila? E as pessoas… Aqui ninguém corre atrás da falta de tempo. Talvez essa seja a razão de me parecerem usar bem a vida…
Subindo a rua, vinham Sua Excelência e o seu assessor. Ao aproximarem-se do casal, interromperam a animada conversa que os ocupava. Trocaram algumas palavras de ocasião e seguiram o seu caminho…
- O Senhor Doutor Juiz sabe escolher as companhias…
Luís virou ligeiramente a cabeça para melhor poder avaliar os atributos da senhora…
- Sem dúvida… Sua Excelência lembra-se daquela outra, uma morena? Este juiz tem bom gosto, lá isso tem.
- Deixemos o bom gosto do juiz e diga-me lá… Já tem o orçamento?
Luís informou Sua Excelência do valor e das características do equipamento.
- Não estava à espera de ser um valor tão grande… E quanto ao prazo de entrega? Já sabe algo de concreto?
Depois de ouvir a resposta, Sua Excelência ficou-se por um silêncio longo… Luís acendeu um cigarro pois sabia que Sua Excelência iria dirigir-se ao ArcoBotante, coisa que demoraria uns cinco minutos… Conforme iam andando, Sua Excelência era cumprimentado por todos os que por ele passavam. Sua Excelência tinha para com cada eleitor uma palavrinha…
- Então como vai? Aquele assunto, de que me falou no outro dia, não está esquecido…
- Dona Joaquina… A fruta está que até apetece comê-la!
E, com isto, os cinco minutos foram-se transformando em dez… Mal se sentaram, Sua Excelência botou sentença.
- Temos de ter isso pronto antes da campanha… Não quero que me acusem de só fazer as coisas em cima da campanha. Portanto, vamos organizar o processo de forma a que esteja tudo a funcionar lá para meados de Novembro… Acha possível? Cuidado com os atrasos. Essa empresa tem o hábito de nunca cumprir um prazo… Veja lá! Fale com o Engenheiro e faça com que ele perceba que, desta vez, não pode falhar!

O Jardim dos Emigrantes estendia-se a um dos lados da Rua dos Prazeres, bem em frente ao edifício da Administração. O lugar era bem agradável… Árvores de grande porte ladeavam os caminhos que convergiam para um espaço central, adornado por um conjunto de fontes. O ruído da água que jorrava em múltiplos jactos cruzava-se com o leve som das folhas que vibravam com a brisa…
Ana Luísa caminhava calmamente. Apreciava os canteiros com suas sebes bem aparadas e era atraída pelos arranjos florais que ainda embelezavam o jardim. Sempre gostara de flores e jardins…
O céu estava de um azul intenso, em que algumas nuvens, fofinhas e bem brancas, se arrastavam lentamente.
António Augusto tinha-a convidado a passar uns dias em 4 Montes. Para Ana Luísa o convite acontecera no momento certo… Já se conheciam há anos, muito antes de ter casado. António Augusto era um dos poucos amigos, daqueles que são mesmo chegados, do seu marido. Entretanto, a vida tinha continuado… Cada um fora para seu lado e só se tinham voltado a encontrar aquando do funeral de Júlio, ainda não tinha passado um mês. O lento apagar de Júlio tinha-a deixado extremamente desgastada, sofrida. António Augusto tinha-se disponibilizado para o que fosse necessário e ela tinha recorrido a ele para resolver aquelas pequenas minudências que sempre acontecem quando alguém morre. Agora, sentia que tinha de voltar a viver a sua vida… As memórias da vida com Júlio ainda a faziam chorar de saudade mas… Sentia-se com força e garra para construir tudo de novo. O sonho que tinham idealizado juntos já não era realizável. Nem fazia sentido nenhum tentar continuar algo que estava amputado, irremediavelmente amputado, de um deles…
Um passarito pousou bem à frente dela, na beirada de uma das fontes. Virou a cabeça na sua direcção e depois mergulhou o bico na água. Que pena não ter ali consigo a máquina fotográfica…
Estava na hora de passar no Tribunal para ir almoçar com António Augusto. Por falar em almoçar, que bem lhe soubera aquela torrada com mel… Fazia-lhe recordar umas férias na praia, em Lagos. Júlio…
Ana Luísa sentiu um aperto no coração… Uma lágrima surgiu do nada.


(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

sábado, 25 de setembro de 2010

Apanhador de sonhos


A corda
enrosca
em nós
envolve
em volta
uma rede
enreda
retesa
tece
uma teia
enrosca
enrola
enlaça
a fita
laça
entrelaça
aperta
estreita
abraça

o desatar
dos nós
solta a corda
desfaz o laço
desenreda a rede
a teia do sonho
não filtra seu abraço.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

ERA TEMPO DE GOIABA


















Até aquela noite, ela tinha aguentado tudo: os gritos, as surras, a humilhação. Ela era casada...

Muitas e muitas vezes amanheceu com um olho roxo e botou o cabelo por cima, para esconder o hematoma. Mentiu que caíra encerando o assoalho, uma vez. Que o dente era um pivô mal feito, e que o quebrou comendo pão.
Aguentou tudo firme, sem gritar e nem dar a entender para o povo que era infeliz no casamento, que sofria maus-tratos dentro da sua própria casa. Que era vítima do próprio marido.
Na primeira noite, ao chegar em casa, foi violentada. Conheceu as verdades do sexo na marra, a poder de tabefe. Quieta, bufando no escuro horroroso do quarto. Ela era casada...
Foram anos e anos assim: apanha, serve o homem, apanha de novo, serve e cala a boca. Quanto tempo? Uma eternidade tão triste e tão longa que já nem lembrava mais o que era sorrir.
Mas, naquela noite, sabe-se lá por quê, sentia um negócio esquisito no peito, feito um rosnado de bicho acuado. Naquela noite aconteceu o que não era para acontecer, mas que já era de se esperar.
Naquela noite, mais uma vez ele chegou em casa bêbado, fedendo a bebida e a perfume de bordel, a rosas murchas e pó-de-arroz barato. Jogou em cima da mesa um pacote com carne de porco:

- Faz aí, anda!

Ela ficou um bom tempo olhando o pacote. Pensou na goiabeira da casa da mãe e na própria infância. Pensou que já era tempo de goiaba e que elas deviam estar maduras, de abrir na mão feito caixinhas de jóias. Lembrou da mãe, das irmãs pequenas e da vidinha até bem feliz que ela já tivera, um dia .
Um cheiro gostoso de goiaba começou a inundar a casa inteira, vindo da noite quente lá fora. Ela abriu a porta da frente e começou a andar sem rumo na noite escura, sem olhar para trás. Nunca mais voltou.

foto: "Dog Woman" - Paula Rego

2006

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

dezoito segundos

Quão
perto é o mais perto que você consegue chegar de um dinossauro? Do lado de um esqueleto de epóxi pintado numa exposição de arqueologia? Quanto a mim, lutei contra uma fera dessas com todas as minhas forças por dezoito segundos e, se não saí inteira, pelo menos estou aqui para contar a história.
Parece pouco,
dezoito segundos. Contados pelo meu marido que viu o começo da cena no alto de um barranco sem poder fazer nada. O importante é que me salvei, ele me salvou e os médicos também me salvaram.
Engraçado,
as duas primeiras coisas que me passaram pela cabeça, aparentemente, não tinham nada a ver com o que estava acontecendo; pensei na pesca do aruanã, um peixe carnívoro da amazônia, e no meu casamento.
Converti-me
ao judaísmo para poder casar com o Joel, em vão, já que descobri depois que não podia participar das principais festas do calendário religioso com os pais dele, freqüentadores da sinagoga dos Safra. O sobrenome Kogan, que não adotei, tem importância fundamental na tradição judaica: indica a descendência direta da tribo Cohen. Rabinos de verdade são da linhagem dos Cohen ou dos Levi.
Nunca
tive religião, queria apenas agradá-lo, conquistar a mãe dele e poder conviver com uma família grande e unida. Não tenho irmãos, perdi pai e mãe aos 20 anos, só restaram uns tios afastados e duas tias esquisitonas, Sônia e Vera, que cuidam da minha prima autista, Aline.
A outra
coisa que me veio à mente foi uma imagem terrível, a armadilha para o aruanã-prateado usando botos feridos. O aruanã sente o cheiro de sangue e vem de cardume para cima da gaiola onde está a isca viva, caindo nas redes da pesca predatória. Às vezes conseguimos tratar desses botos, abandonados feito lixo depois da
barbárie.
Vim para a Amazônia realizar a coleta de dados do meu pós-doutoramento; estudo o comportamento territorial e reprodutivo do pirarucu em Mamirauá, reserva ecológica no médio Solimões. O Joel desenvolve projetos de gestão pesqueira com populações ribeirinhas em áreas aquáticas protegidas; nos conhecemos na USP, ele terminando etnologia, e eu, caloura da biologia.
A noção
de desenvolvimento sustentável começou aqui em Mamirauá. Quase um milhão e meio de hectares de floresta tropical submersa, um mundo flutuante submetido a um regime de variação do nível de água da ordem de 20 metros. Um paraíso para cientistas, artistas, ativistas e... turistas.
Nada
contra o ecoturismo, o problema é que muitos pensam que estão no zoológico. Restos de comida humana, por exemplo, prejudicam a relação com animais in natura; uns imbecis aqui deram de alimentar um jacaré-açu de 5 metros e meio, só para filmá-lo alçando seus 500 kg para fora da água e abocanhando peixes no ar.
O vacilo
também foi meu, é verdade, mas a estupidez alheia contribuiu. Havia acabado de pesar e verificar as anilhas de um lote de pirarucus e despejava o tanque de coleta devolvendo-os para o rio. Um deles saltou de volta para o deque, peguei-o com jeito e me debrucei na beirada segurando firme pela guelra. E então,
o bote.
Uma bocarra com 80 dentes afiados saiu das águas escuras e fechou suas mandíbulas no meu braço esquerdo, me arrastando para o fundo. Como o som de taquaras secas, escutei os ossos do braço, do cotovelo e os ligamentos se quebrando instantaneamente. Ouvi um grito antes de cair
na água
― o Joel. Era como ter o braço esmigalhado por uma prensa mecânica, uma torquês operada por músculos descomunais; senti uma dor selvagem, desumana, uma dor que ninguém deveria conhecer; podia localizar cada ponto em que os dentes do bicho se enterravam na minha
carne
dilacerando o que encontravam pela frente. Os jacarés descendem de caçadores que estão aí há 230 milhões de anos, eficientíssimos, são predadores do topo da cadeia alimentar, tão eficientes, que caçam até outros predadores de topo como onças, pumas, jibóias e sucuris. Eu sabia exatamente o que ia acontecer
a seguir:
a dor tem esse efeito de nos tornar brutalmente conscientes. Tudo se passava rapidamente, embora fosse capaz de perceber a passagem de cada centésimo de segundo distintamente. Ele me levava mais e mais para baixo e para o meio do rio, remando propulsado pela cauda e as patas traseiras, enquanto à minha volta minguavam os fiapos de luz coados da superfície.
TRRLOOC!
Girando repentinamente sobre o seu eixo longitudinal, o gigante desencaixou completamente a articulação do ombro, supinando o meu braço num ângulo absurdo; a dor, que acreditava já estar no ápice, sofreu um acréscimo impossível, me conduzindo a novos e insuspeitados patamares do medo pânico.
Perdi
os sentidos na volta do parafuso, o bicho voltou a atacar com violência, girando agora o membro que já não sentia, na direção oposta; desceu sobre mim uma calma escuridão pouco antes de registrar que o meu braço tinha sido arrancado de vez por um último puxão

acordei de uma noite cega em pleno campo de batalha, conhecia as regras da luta: ele ia voltar, precisava engolir o naco que me arrancou para caber outro. Jacarés comem diariamente 10 % do peso na forma de presas vivas; eles não caçam propriamente, esperam imóveis, aguardam pacientes a vítima chegar desavisada, e só então se movem, rápidos, letais.
Algo
quis viver em mim; nadei louca para o cais, chorando alucinada, berrando, engolindo água, pedindo outra chance ― não queria morrer com 34 anos, não desse jeito. Realizei o sacrifício, entreguei uma parte à mãe d’água para ficar com o todo que sobrasse. Senti as mãos do Joel a me puxar pelos cabelos e camisa para cima do flutuante, do meu ombro jorrava uma coluna de sangue; nos beijávamos
abraçados
e ensangüentados, soluçando como crianças. Desmaiei de novo. Fui levada de barco e monomotor para a cidade de Tefé, onde fui operada de urgência; não posso exprimir em palavras a dívida de gratidão para com o Instituto, que me disponibilizou sua infra-estrutura incondicional e prontamente. Meu marido não saiu do meu lado.
Passei
um bom tempo me tratando, tranquei a pós, fiz análise, tomei 3 tipos de remédios para a depressão. Para minha surpresa, a sogra agora me tratava como da família, engolia sem questionar minha conversão fajuta na sinagoga reformista, onde homens e mulheres rezavam juntos, em português, e até rabina admitia. Joel me contou que desceu o barranco contando os segundos, procurando manter a vista no lugar onde eu desaparecera; ia encarar o jacaré-açu quando me viu subindo à tona.
A cabala
transmuta letras em números, e vice-versa, dezoito equivale ao valor numérico da palavra hebraica “Chai”, que significa “vivo”; no misticismo judaico, o número 18 corresponde ao poder da vontade na alma.
Finalmente
decidimos voltar para a floresta. Deixei a megacidade para trás como se fossem as fotos envelhecidas da infância de outra pessoa, hoje, no mapa do meu mundo, São Paulo é só memória, um pano de cimento sujo semeado de shopping centers. Selva bem mais perigosa que desejo
longe.

domingo, 19 de setembro de 2010

Aldeia dos Quatro Montes - Cap. 2

Aldeia dos Quatro Montes


2

Sua Excelência aguardava com expectativa que Luís, seu assessor, chegasse…
Felisberta, secretária de Sua Excelência, lia os jornais do dia.
Logo que o viu ao cimo das escadas, Sua Excelência mandou-o entrar para o gabinete e, fechando a porta, disse à secretária para não ser interrompido nos próximos cinco minutos… Ora, isto não era nada habitual e Felisberta ficou a matutar… Que teria acontecido? Que ela soubesse nada de extraordinário se tinha passado em 4 Montes nos últimos dias.

Entretanto, no Café ArcoBotante, a manhã decorria com a normalidade de uma qualquer quarta-feira, o dia mais calmo da semana.
Atrás do balcão, de braços atrás das costas, Salústrio, dono do estabelecimento mais bem frequentado de 4 Montes, olhava para o movimento que não acontecia no Largo da República.
Eram nove horas e seis minutos… Dentro de três minutos, a porta da casa amarela abrir-se-ia e às, exactamente, nove horas e dez minutos, o senhor director estaria sentado à mesa do canto. O Jornal das Notícias e um café (estupidamente curto… conforme desejo expresso do cliente) teriam de estar na mesa num piscar de olhos.
Tudo correu como sempre…
A porta abriu-se, o senhor director atravessou o Largo, o senhor director entrou pela porta do meio…
- Bom dia, senhor director!
- Bom dia, caro amigo!
- Cá está o cafezinho e o jornalzinho, senhor director.
O senhor director abriu o Jornal das Notícias, diário de distribuição nacional, que chegava a 4 Montes pelas sete da manhã, isto se o tempo o permitisse.
Salústrio dedicou-se à limpeza de uns copos e de uns cálices que já brilhavam antes de ele lhes pegar.
Bem gostaria de dar dois dedos de conversa com o senhor director. Mas não se atreveria a tal provocação… Era do conhecimento público que o senhor director detestava ser interrompido quando estava enfronhado na sua leitura matinal.
Além disso, Salústrio estava convencido que não demoraria muito a poder apreciar alguma animação.
O senhor Doutor Juiz tinha voltado no dia anterior da capital e deveria estar a chegar para tomar o pequeno-almoço. Uma torrada de pão centeio barrada com pouca manteiga de meio-sal e duas colheres daquele mel que só conseguia por especial favor e um galão, bem escuro.
Ao cimo do Largo, vislumbrou o magistrado…
Olá! Aqui há coisa… Quem será aquela senhora toda bem posta que o acompanha?
Saiu de trás do balcão, pegando num pano, e deu início à limpeza dos tampos das mesas, sem deixar de ir deitando uma mirada para o par que, calmamente, atravessava o Largo. Quando teve a certeza que se dirigiam para ali, aproximou-se da porta e abriu-a para dar passagem.
- Bom dia senhor Doutor Juiz, bom dia minha senhora!
Pelo canto do olho, percebeu que o senhor director tinha interrompido a leitura.
Acompanhou, à distância adequada, o par até uma das mesas:
- O Senhor Doutor Juiz vai desejar…?
- Ana Luísa, hoje vai poder apreciar uma especialidade aqui do ArcoBotante e de 4 Montes… Faça-me o favor de nos servir duas torradas, daquelas especiais e dois galões, o meu como sempre e outro mais clarinho.
- Com certeza…
Conforme, Salústrio se dirigia à cozinha para aviar o pedido, ouviu o magistrado dirigir-se ao senhor director:
- Senhor director… permita que lhe apresente uma boa amiga…
Salústrio já estava dentro da cozinha e não tinha linha de vista para a mesa do canto. Mas, nem era necessário… Sabia que o senhor director se tinha levantado, que tinha pegado nas pontas dos dedos da senhora e que, batendo os calcanhares, tinha feito uma ligeira vénia…
- Minha senhora, um vosso criado…
Ana Luísa ficou sem jeito… Nunca lhe tinha passado pela cabeça que aquele homem teria aquele gesto tão fora de moda… Olhou para António Augusto e ele veio em seu socorro.
...
A porta do gabinete de Sua Excelência abriu-se.
- Luís, peça esse orçamento… Para esta semana… E, não se esqueça, máxima confidencialidade… este assunto fica só entre nós! 

(se desejar ler o Cap. 1 clique aqui)


(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

sábado, 18 de setembro de 2010

a estratégia r

Você já deve ter ouvido falar que os pobres têm muitos filhos porque são ignorantes, desinformados, não sabem usar métodos anticoncepcionais e etc., etc..

Besteira. E da grossa.

Pabulagem de gente bem nascida que acha que tem o monopólio da inteligência e sensatez, gente capaz de importar ― de lugares onde todos nascem inteligentes e sensatos ― programas de esterilização...

... de gente.

Seres humanos são, entre tantas coisas, organismos biológicos e, como tal, procuram se adaptar às condições em que vivem. Pobres têm poucos recursos, suas circunstâncias são instáveis, seu futuro, incerto.

Indivíduos e populações cujo ambiente muda constantemente reproduzem muito e investem pouco em seus rebentos. Chama-se a isto estratégia r, vale para bactérias, couves, suricatos e... humanos.

Quando o habitat é seguro, o alimento abundante e há poucos predadores, inverte-se a equação reprodutiva (prole menor, mais cuidado) e damos o nome de estratégia k.

Na época em que se passaram estes fatos eu trabalhava na EMBRAPA e percorria a fronteira Minas-Goiás a bordo de uma camioneta F-1000 vacinando o gado para deter uma epidemia de febre aftosa.

Nas grandes fazendas, com os pecuaristas alertados pela televisão, a vacinação em massa andava sem problemas; a minha missão era achar os pequenos criadores dispersos pela zona rural a noroeste de Unaí.

Cheguei com o fim da tarde a uma região conhecida como Valo do Traconhaém, onde, depois de tomar informação de um moleque a cavalo, segui mais sete quilômetros de trilha poeirenta até o sítio do ‘seu’ Benedito Pedrinhola.

Bené Pedrim, como se apresentou, me recebeu de boa mina, levantando-se da rede enquanto um enxame de filhos nos espiava com olhos curiosos e narizes ramelentos. As reses, que já estavam recolhidas no cercado, vacinei imediatamente...

... mas faltava um garrote, que Dona Emerenciana e a filha mais velha tinham ido recuperar lá pras bandas do outeiro. Esperei. Só ia sair dali com todas as cabeças imunizadas.

Assim que me vi partilhando a caninha de Nhô Bené em copos de requeijão rachados, proseando mansinho na sala da tapera sem luz elétrica. Lá fora, a criançada subia e descia pulando da caçamba da camioneta...

... numa algazarra de cem maritacas (eu só pensava se me iam escangalhar o isopor onde guardava as ampolas). Disse-me que a espera seria recompensada por um café passado na hora por Dona Ciana...

... que chegou pelo carreiro que contornava a casa por trás. Ouvimos a voz da criança levando o bicho para o cercado e um retinir de bacias de metal vindos dos fundos. Desconhecendo a minha presença, Dona Ciana chamou de lá ‘seu’ Bené:

“Marido, vai usar hoje?”

Roxo feito jambo maduro, Bené Pedrim tartamudeou constrangido:

“N... não, a causa que...”

“Antão vou lavar só os pé!”

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

dobras



Dobras vulvares
De uma rosa
Pequenas pétalas
Grandes lábios
De um beijo
No desdobrar do prazer



(edmar)
_________________
foto Paulo Tabatinga

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Cada um dorme como quer


Lucas era um homem grande, forte, de meia idade, funcionário do cartório de uma pequena cidade que experimentava um período de crescimento econômico. Fato este que atraia muita gente de todo lugar e o que era pior de toda espécie. Os golpes e calotes eram constantes, os preços subiam demais, tudo estava ficando caro demais, até os respeitáveis senhores, velhos conhecidos seus, pareciam ter perdido o bom senso e a cidade parecia contaminada por uma febre de ganância nunca sonhada.

Cada dia mais desgostoso e aborrecido começou a fazer suas compras em outras cidades, medico, dentista, tudo começou a ser utilizado fora da cidade, para ele e para sua familia. Comparava os preços e fazia questão de falar das diferenças em voz alta, deixando descontentes muitas pessoas, mas não se importava. O que não queria mesmo era ser enganado. Surrupiado como costumava dizer.

Numa bela manhã um caminhão parou na porta de sua casa e dois homens desceram procurando por ele. O filho mais novo correu até o cartório a procura do pai e assim que o encontrou comunicou-lhe o fato. Lucas saiu rápido e chegando em sua casa viu vários vizinhos andando nas imediações curiosos em saber o que trazia aquele caminhão roxo de Piracicaba, cidade que ficava tão longe dali. Alguns andavam como se nada quisessem, outras varriam a frente da casa, outros conversavam, mas todos atentos ao caminhão.

Lucas percebeu tudo, mas não se importou e foi logo cumprimentando os dois homens que em seguida abriram a porta de traz do caminhão roxo e de lá retiraram um caixão. Um caixão grande de madeira boa, todo envernizado com alças brilhantes de bronze e entraram na casa carregando o fúnebre objeto. Lá dentro travou-se uma discussão entre Lucas e sua esposa sobre onde iriam guardar o caixão, discussão essa que foi ouvida todinha pela vizinha da direita, depois de algumas ponderações de ambas as partes ficou resolvido que o caixão ficaria em cima do guarda roupa do quarto do casal. E por lá ele permaneceu por mais de 20 anos garantindo o sono tranqüilo do Lucas, que sonhava não ser enganado nem depois de morto.

domingo, 12 de setembro de 2010

Aldeia dos Quatro Montes - Cap. 1

Aldeia dos Quatro Montes

1

            A Aldeia dos Quatro Montes era uma pequena Vila...
(Para quem se questionar sobre esta discrepância entre Aldeia e Vila, aviso desde já que não tenho explicação para tal fenómeno… Talvez fosse a mania das grandezas, muito em voga naqueles tempos.)
Dizia eu que a Aldeia dos Quatro Montes é uma pequena Vila, perdida no interior.
Já tinha tido o seu tempo áureo, arrastando-se agora numa luta insana para fugir ao esquecimento.
A vida corria pacatamente…
Numa noite de Verão, em que a animação aumentava graças aos emigrantes que ali passavam as suas férias, um dos poucos cruzamentos perigosos da terra foi palco de um acidente entre dois carros.
Tratou-se mais de chapa batida, sem feridos, excepto um corte numa das mãos de um dos condutores… Nada que merecesse grandes preocupações.
No dia seguinte, o acidente foi tema de conversa nos bancos do jardim, nas mesas dos cafés e, até, na homília da missa da tarde.
Porque estes jovens de hoje são todos uns irresponsáveis…
Olha, que bebam água… E mesmo essa com cautela… que a nossa água tem muito grau!
Tinha que ser… Eu não vos dizia que naquele cruzamento ainda se há-de matar alguém?
As poucas vozes mais sensatas bem tentavam chamar a atenção para o facto de aquele ser o primeiro acidente em muitos anos mas, convenhamos, ninguém queria dar ouvidos a esse tipo de conversa…
Então, agora que tínhamos motivo para dar à língua, vinha alguém dizer que o assunto não tinha importância? Era o que faltava!
E o assunto foi ganhando amplitude…
O jornal local, que saía uma vez por mês, lá conseguiu trazer uma imagem dos dois carros, na primeira página. Os carros já estavam na oficina de bate-chapas do Alfredo. O director, e único jornalista do mensário, informava os distintos leitores de que o arranjo seria de pouca monta e o serviço seria rapidamente realizado pelas competentes mãos dos exímios trabalhadores da Oficina Carvalho (passe a publicidade… dizia o director).
Em editorial, o director perguntava se os poderes públicos estavam atentos ao que se passava na Vila… Na mesma página, surgia uma entrevista ao administrador da terra em que Sua Excelência se afirmava preocupado, afirmando que iria exigir (este “exigir” estava em negrito bem carregado) a quem de direito que se reforçasse o policiamento nas vias, principalmente, no Verão.
No final da página, numa caixa, o director do jornal fazia eco das preocupações de muitos dos habitantes da Aldeia dos Quatro Montes.
“ A nossa Vila merece mais… Basta olhar para os nossos vizinhos e perceber que estamos a ficar para trás…”
E terminava com um afagozinho ao poder local:
“Queremos acreditar que a nossa administração tudo fará para resolver este magno problema… Não será, certamente, por falta de empenho do senhor Administrador que este assunto morrerá no olvido.”
O senhor director usava uma linguagem rebuscada, quase rococó… Dizia ele que um jornal também serve para instruir!
Habitualmente, o “Mensageiro dos Quatro Montes” era mais lido por causa dos anúncios do Cartório do que pelas poucas notícias que lá vinham… No entanto, esta edição foi um sucesso…
Quem passava pelo senhor Administrador cumprimentava-o pela excelente entrevista e pedia-lhe que exigisse mesmo o reforço do policiamento.
Até porque, continuavam eles, qualquer dia ainda nos fecham o posto da Guarda… Já só lá estão meia dúzia de guardas, exageravam…
 Sua Excelência agradecia os cumprimentos e reafirmava a sua firme intenção…
Até que um dia, numa conversa com um dos seus colaboradores, lhe surgiu uma ideia…

(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010



a clinica na mídia

no dia dos pais, a Folha São Paulo publicou as desventuras em série de um pai diante da errância do filho psicótico. Mesmo sem obter resposta satisfatória, aquele pai acompanhou as peripécias de um filho, apostando num plano de consistência que comportasse uma subjetividade tão original quanto esquisita. Ele concluiu seu relato dizendo que o filho morreu por problemas cardíacos decorrente do uso de medicamentos, e alertou para o banal do fato.

no dia da Pátria, trouxe a trágica epopeia do menino Kyle Warren que começou a tomar antipsicóticos aos 18 meses. Como sua mãe estava “desesperada, sem saber o que fazer”, o psiquiatra achou que os remédios ajudariam a tratar o transtorno da criança: fortes acessos de raiva.

uma coisa que se ignora é o momento em que a loucura faz buraco no sistema, mas ela sempre se faz acompanhar da aversão à obrigação. Além disso, também é depositária do direito do sujeito de decidir por quais vias e enlaces devir.

a lição que se tira destas notícias: a psicoterapia é a chave para o tratamento, mas às vezes as famílias querem uma solução rápida e a terapia pode demorar um pouco para apresentar os resultados buscados. nunca esquecer que os medicamentos podem favorecer a melhora, mas que devem ser usados de modo suplementar.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Duplix por: Hod & Angela

Tela de Lourdes Castro .arte_facto hereges perversões


Vãos // Anseios

espreito frestas abertas // incompleto ser

gravito, lua longínqua luz // procuro palavras

varo noites por vãos // sucumbo, imensidão vital !

Hod Angela



Realizado com o amigo Hod do blog : O Olhar de Carpe Diem Para o Século XXI