domingo, 3 de outubro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 4

Aldeia dos Quatro Montes

(se desejar ler os capítulos anterior: Cap.01, Cap.02, Cap.03)

4


- Ó Maria… Maria… Vai-me tirar aqueles figos cá para dentro. Não demora muito e está para aí a chover. Ó rapariga, mexe-te! Catancho… Eu, na tua idade…
A Ti Joaquina continuou a atazanar a desgraçada da moça, até que os figos estivessem todos resguardados. Ainda a Maria não tinha recuperado o fôlego e as primeiras pingas começavam a bater na janela que dava para o quintal da Pensão Moderna.
A chuva, de pingas grossas, caía forte. Maria olhou para o céu, carregado de nuvens escuras e baixas que corriam empurradas pelo vento. Bem falta fazia esta chuvada!
- Maria!
- Já lá vou, Madrinha.
A Pensão Moderna era o tem-tudo de 4 Montes. Tinha quartos para hóspedes, sala de refeições, mercearia, café e tinha a Ti Joaquina.
Mulher dos seus cinquenta e tal anos, viúva, sem criação, coisa que a deixara marcada para a vida. Compensava essa falta com dedicação e amor à sua casa, a Pensão Moderna.
Ganhara a casa com o casamento. Fora para lá trabalhar com doze anos, como ajudante para todo o serviço. O Senhor António enrabichara-se pela mocita e ao ela fazer quinze anos já tinham dado o nó, para escândalo de toda a gente. Nunca tal se vira… Um fedelho dar a volta à cabeça de um homem que tinha idade para ser avô dela… O casamento não durou muito que o senhor António era homem de se tratar bem… Boa comida, boa pinga, deu no que deu. As más línguas de 4 Montes disseram, à época, que se não fora a Joaquina, o homem durava mais uns bons anos. O facto de ter morrido com uma apoplexia e ter sido encontrado na cama quase desnudo tinha ajudado bastante a alimentar esta versão…
Há trinta anos que a Ti Joaquina tomara conta da Pensão que, na altura, não passava de uma casa de hóspedes, com os seus seis quartos, e uma sala de jantar pequenita.
Poupada como era, a Ti Joaquina, que tinha tino para o negócio e era trabalhadeira, transformou aquilo que herdara nesta bela Pensão Moderna.
- Que me queria, Madrinha?
- Vai lá acima preparar os dois quartos da ponta para uns senhores que devem estar a chegar… Despacha-te que, depois, preciso de ti na cozinha! Está quase na hora de começar a tratar do jantar.
- Já me esquecia… O Senhor Doutor Juiz mandou perguntar se a Madrinha lhe tinha conseguido arranjar as pavias…
- Ó diacho… Não é que me esqueci! O Manel prometeu que mas trazia amanhã… Olha, antes de tratares dos quartos, pega aí no telefone e liga lá para casa a dizer que pode cá passar amanhã, pela hora do almoço. Raio de cabeça a minha…
Ao balcão estavam dois clientes que queriam meter o Euromilhões.
- A ver se é desta que me toca a sorte… Bem jeito me davam os 100 milhões! Ti Joaquina se me sai o jackpot prometo que lhe faço um agrado! Olhe, dou-lhe um carro…
- Ó homem de Deus! E para que é que eu queria um carro? Se até hoje nunca precisei disso, ia ser agora que me iam ver atrás do volante… Tenha juizinho! Olhe são 10 euros… Esta semana anda toda a gente à procura da fortuna!
- Madrinha, o Senhor Doutor manda perguntar o que tem para o almoço de amanhã?
Maria lá voltou ao telefone com a resposta, enquanto a Ti Joaquina ia servindo os clientes. Com não parasse a chuva e o vento, foram ficando ao balcão.
- O senhor Doutor Juiz pede para lhe reservar uma mesa para dois para o meio-dia.
- Para dois? Deverá ser para ele e para aquela senhora… Guarda aquela mesa, junto à janela que dá para o quintal. Ó rapariga vai lá arranjar os quartos!
Na Rua dos Prazeres acenderam-se os candeeiros da iluminação pública. A água da chuva quase galgava os passeios. Estava aí o Outono…
…....
O Senhor Director estava ao balcão do ArcoBotante.
- Pois é Senhor Director… É como lhe digo. Isto está cada vez pior! Não há gente e não havendo gente… não há movimento. É uma pasmaceira completa! Veja lá o senhor quantos jovens não saíram de 4 Montes nos últimos anos? Uma brutalidade…
- O Senhor Salústrio há-de convir que em 4 Montes não se podem criar empregos em quantidade suficiente para fixar toda a juventude… O que nos falta é quem tenha capacidade de investimento. É necessário…
Parou um carro em frente ao café, interrompendo a conversa. Por detrás dos vidros carregados de chuva tentaram perceber de quem se tratava…
Quando a porta do café se abriu, Salústrio ficou que nem uma estátua, lívido e paralisado.
O Senhor Director levantou-se…
- Boa tarde, Pai.


(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

2 comentários:

missosso disse...

ahahahaha, já me apaixonei pela Ti Joaquina, catancho, a rapariga matou o velho no ato! Boa, boa.

angela disse...

Esse conto vai render muitas histórias...rs