domingo, 10 de outubro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 5

Aldeia dos Quatro Montes

(se desejar ler os capítulos anteriores: Cap.01Cap.02Cap.03Cap.04)



5



Salústrio olhava em direcção ao filho, Pedro, como se ele fosse transparente, como se não estivesse ali, à sua frente.
Percebendo a situação, o Senhor Director, mandou-se para a frente, abriu os braços e engolfou neles o rapaz. Rapaz, como quem diz, pois Pedro já passara bem dos trinta anos.
- Então, meu caro Pedro! Folgo em vê-lo por 4 Montes. Há um bom par de anos que não nos honrava com a sua ilustre visita.
Salústrio tentou ver se no carro estava mais alguém…
Pedro soltou-se do abraço do Senhor Director e andou dois passos…
Olhou o pai, olhos nos olhos…
Salústrio, finalmente, libertou-se da paralisia que o acometera e, saindo do balcão, abraçou o filho.
O Senhor Director decidiu sair de cena, fechando atrás de si a porta do Café ArcoBotante.
 Ao passar pelo carro, por sinal uma bela máquina, reparou nas luzes acesas… Ainda olhou para dentro do café mas aqueles dois tinham mais que fazer… Abriu a porta, e ao ouvir o motor, ficou com a certeza de que Pedro estava tão nervoso como o pai. Nem tinha parado o carro.
.......
Pedro era o filho mais velho de Salústrio. Já fizera trinta e seis anos. Com grande sacrifício do pai, tinha tirado o curso de engenharia civil, na capital. Brilhante aluno, arranjara emprego com facilidade logo que teve o canudo. Fora trabalhar para uma grande empresa de construção civil, que tinha projectos em vários países. Depois de um ano de tarimba, fora enviado para Angola, onde rapidamente singrou nos quadros da firma. Foi lá que conheceu a Isabel, sua colega na empresa mas com formação na área de gestão.
Para além da inegável competência técnica, Pedro fora atraído pelo sorriso franco de Isabel. Os colegas diziam que essa treta do sorriso era para disfarçar…
- A gaja é mas é… boa como o milho!
Pedro nunca na vida teria imaginado que se apaixonaria, perdidamente, por uma pessoa de raça diferente da sua… Mas a vida é como é…
Quando, num dos telefonemas que fazia amiudadas vezes, contou ao pai que tinha começado a namorar percebeu, pela reacção dele, que iria ter um problema…
- Ó rapaz, já não era sem tempo… Mas, vê lá! Não te deixes agarrar por nenhuma lambisgóia dessas daí!
Quando conseguiu tirar férias, trouxe a Isabel a Portugal, até porque ela tinha família na capital. Uma das irmãs estava a estudar medicina.
Cada vez que se recorda da situação, Pedro fica furibundo. O pai, quando viu que Isabel era negra, até disfarçou bem… Mas, quando o apanhou a sós, perguntou-lhe se aquilo era a sério e como Pedro lhe respondera que estavam a pensar em casar o mais breve possível, o pai só lhe dissera:
- Pois… Espero que sejas muito feliz! Mas, na minha casa essa preta não volta a entrar! E não te atrevas sequer a convidar-me para o alambamento!
O senhor Salústrio tinha feito a guerra em Angola e conhecia o linguajar da terra.
A partir daí, Pedro tinha-se afastado do pai.
Casara com Isabel e decidiram ficar a viver em Angola…
…….
Quem passasse em frente ao ArcoBotante estranharia o facto de, apesar da hora, as luzes já estarem apagadas e os cortinados estarem corridos… O facto de um carro estranho estar estacionado, bem em frente à porta, levaria os passantes a concluir que algo fora do vulgar estava a acontecer… O letreiro luminoso, piscando, era o único sinal de normalidade.
No andar de cima, sentados à mesa da sala de jantar, Salústrio e Pedro comiam uns ovos mexidos… Não pareciam dar grande importância à comida.
- Pai, estava a pensar ficar um tempo cá em casa…
- Fazes bem… Olha… diz-me, como é que aconteceu isso? Apareceu, assim, de repente?
- Sabe como é… ela começou a sentir que algo não estava bem em Abril. Foi a um ginecologista e ele mandou-a para Joanesburgo, para fazer uns exames e pronto… Quando soubemos do resultado, ela foi-se abaixo… Foi o princípio do fim. Acabou-se o sofrimento no dia 17 de Setembro.
Pedro e o pai ficaram quedos… O garfo de Pedro mexia nos ovos, puxando-os para um lado, depois para o outro. Salústrio nem sabia o que dizer, nem o que fazer… Levantou-se e foi à cozinha. Quando voltou, trazia na mão uma pavia, bem grande, cheirosa… Abriu a mão de Pedro e colocou-a lá.
Pedro olhou para aquele fruto de que tanto gostava, inalou o aroma tão especial, acariciou a pele suave, passando os dedos lentamente…
Sempre se espantara com a cor das pavias, aqueles tons rosa e avermelhados… E o sabor…
Semi-cerrando os olhos, deu a primeira dentada.


(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

4 comentários:

missosso disse...

isto aqui vai bem mais sumarento que uma pavia, este formato de capítulos vai nos familiarizando com uma bela gama de personagens e situações - a coisa desenrola-se à maravilha!

José Doutel Coroado disse...

Caro Missosso,
grato pelos coments.
veremos o que nos acontece nos proximos capitulos.
abs

missosso disse...

o tema deste post também é muito delicado e oportuno - gostei de lembrar do "alambamento".

José Doutel Coroado disse...

Caro Missosso,
grato pela leitura atenta.
abs