quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Zoadinha e o Iluminado

Zoadinha. E dizer que ela descobriu o apelido que a homarada da vizinhança lhe pregara pelas costas só depois que foi trabalhar na casa do velho. A tia que pagava a faculdade do irmão falecera e os herdeiros em guerra cortaram logo o bolsa-escola da solteirona benemerente, de modos que resolveu pegar o turno da noite no home care do ricaço para completar as despesas. Casa de remediado, cai um copo, racha um prato.

― Zoadinha... mas gostosa. A coda do apelido os garanhões de subúrbio, evidentemente, não disseminaram... ― o velho era de falar tudo na bucha, ela, zero burra, devolvia jabs com cruzados, respondia ganchos com diretos. Entenderam-se desde o primeiro encontro.

Saía do trabalho às sete, chegava, dava um talento na casa, deixava a janta pronta e tomava uma ducha rápida antes de sair para a terceira jornada, das nove às seis. De dia era atendente na farmácia do bairro, a falsa magra do balcão; os marmanjos se revezavam em levar-lhe uma cesta provida de camisinhas, ky e comprimidos de levanta-pau só para vê-la no caixa, corando como pimentão enquanto fazia a soma, embalava e indicava os produtos na promoção.

― Faz um desconto do bom, porque ainda vou gastar no rolê com a mina. Mulher e carro, já viu, precisa de dinheiro e gasolina ― disse um.

― Esta casa parece uma caixa com paredes feitas de livros; muitos deles, você que escreveu. Pra quê? ― não era feia, o que é, é que, à primeira vista, o projeto geral parecia meio escangalhado; sobretudo as feições eram esparsas, distribuídas por um crânio alongado demais em que o osso extenso do nariz vinha até embaixo, alargando pouco ao aproximar-se dos lábios generosos. As pupilas, tinha-as fugidias e negras, aqueles olhos quirguizes de caboclo meio puxado a índio, o que os cabelos longos e escuros confirmavam, mas a pele desmentia com uma brancura sardenta e sujeita à ruborização constante.

― Qual deles você gosta mais Zoadinha?... Ah, muito perspicaz, é o meu preferido também; ganhei prêmios com ele ― acabara de completar noventa anos; era de estatura média, não fosse pelo cabeção desproporcional emoldurado por grossas sobrancelhas, nada haveria nele que fosse fisicamente incomum, nem mesmo a magreza que a idade acentuara. Viúvo, seis filhos e cinco netos; ficou morando sozinho no casarão ilhado pela deterioração do bairro. Por causa dos joelhos, não conseguia mais se levantar de cama ou cadeira sem ajuda; um pequeno exército de cuidadores orbitava em torno dele 24 horas por dia. Era considerado um gênio vivo.

O que nela também não colaborava era um começo de giba, conseqüência postural da timidez, que dava a impressão de encurtar o tronco, conferia um jeito de cambitinhos arqueados às pernas, além de empurrar para dentro uma bunda que mereceria o destaque da lordose. O velho catucava, chamava-a na chincha, por que acreditava ela ser dedo-podre no amor? ― Aos vinte e sete anos parece cedo, ok, comparada ao senhor sei que não é nada, mas já desisti. Sou que nem curva de rio, só pára tranqueira ― firmes e empinados peitinhos, somados à auto-ironia sarcástica derretiam o ancião.

― “Teomaquia, a luta contra o Deus do mundo e os deuses interiores”... É verdade que teve uma... visão? ― habitualmente iam até meia noite na prosa, raramente tinha trabalho de madrugada, embora às vezes ele se cagasse todo e aí era uma trabalheira dos diabos dar-lhe banho e trocar a roupa de cama. Fora que o coitado ficava pra lá de desconsolado no dia seguinte. O descompasso, cada vez mais acentuado, entre o corpo e a mente acabrunhava-o, sentia-se traído pelo arcabouço em desintegração enquanto o espírito permanecia cruelmente lúcido.

― Não foi uma visão apenas, porque outros sentidos estavam envolvidos. Senti o Deus que há dentro e fora de nós, fui do visível ao invisível, pulei da realidade subatômica, em que a noção de distância deixa de fazer sentido, aos confins do espaço, onde começa o umbigo do universo que contém este universo, e assim ao infinito; Zoadinha, conheci o sustentáculo do cosmos, a ligação de todas as coisas, o entrelaçamento do humano e da natureza, atingi a mais perfeita beatitude e o mais fundo desespero, onde o místico ultrapassa as aparências e encontra a verdade última, a unidade original em que Deus coincide com a realidade.

― Então foi assim que conseguiu criar a sua maçonaria? Ouvi dizer que só tem granfo lá... Agora, por que é que seus filhos não deixam o senhor aparecer?...

― Ser velho é virar papel higiênico: ou se está enrolado, ou cheio de merda. Por isso meus filhos me afastaram do dia-a-dia do meu instituto, como sustentar a figura de um fundador mítico, apresentando um homem que não anda nem limpa mais o cu sozinho?

― Só não entendo como o criador de uma seita pode falar nos seus livros que é preciso combater o Deus que existe em nós... o senhor é ateu?

― Não sou, nunca fui, religioso e nem fundei cabala nenhuma, sem embargo, não vejo como poderíamos nos livrar Dele, ao menos não definitivamente. Veja, durante a minha epifania não tive apenas um lampejo do que é o universo, mas também enxerguei como as coisas realmente funcionam neste mundo. Daí que passei a vender o único artigo de fé do homem moderno: eficiência.

― Fugiu da minha pergunta, para variar, vamos mudar um pouco, vou lhe ler o que escreveu: “assim como nos chegou, o relato da Criação é uma história mal contada, e toda história mal contada acaba por revelar muito mais do que gostaria”.

― Claro, olhe, quando duas criaturas se encontram, é quase impossível que a mais forte não devore, abuse ou explore a mais fraca. Vale entre animais, vale entre os humanos e Deus; não digo que Ele exista lá fora, no espaço sideral, acontece que, a partir do momento que a linguagem entra em nós, a violência se consuma. A ordem simbólica só entra no corpo causando grandes estragos; Geová, o grande verme, o grande Outro que me habita e me descentra de mim mesmo. A única ciência que a religião sempre vai precisar combater é a biologia.

― É arrepiante, o senhor diz que a Bíblia é a história de um estupro. Quer dizer então que nós dois aqui só nos respeitamos porque um não tem mais força que o outro?

― Pode apostar nisso. Leia o Bereshit com muita atenção, Javé cria animais selvagens e domésticos em pares de macho e fêmea e lhes manda frutificar e multiplicar; mas eis que faz exceção ao bicho criado à Sua imagem e semelhança quando leva seu rebanho para o Jardim do Éden, qual o motivo?, esquecimento, distração, lhe garanto que não foi...

― Só que vai uma grande distância afirmar que houve um abuso sexual no Paraíso!

― Um não, dois. Eva também entrou na dança. Atente para o fato de que o pecado original nada ter a ver com sexo, mas sim com o conhecimento; está lá, em Gênesis 3:21, “Eis que o homem se tornou como um e nós, conhecedor do bem e do mal.” Percebeu o “nós”? Deslize de tradução, interpolação tardia? Nada disso, Elohim sabe que não é o único tigre de papel no país das idéias platônicas. Ele cansara das vítimas, mas não do jogo; acompanhe a descendência de Adão e Eva, por que recusa Ele as oferendas do lavrador Caim, mas aceita as do pastor Abel?

― Eu li isso, é outro dos seus absurdos: Caim seria filho de Deus, Abel, de Adão... Já sei o que vai dizer, que Eva afirma ter possuído “um homem com a ajuda do Senhor”, antes de Caim nascer e que isto se repete com Maria e o Cristo, abandonado na cruz... loucura!...

― O fato de os padres não se absterem de atacar os petizes não é uma perversão, mas a reencenação xamânica de um ato primordial da divindade. Chamo-lhe a atenção para a simbologia: árvore, escada e cruz; a árvore do centro do Éden, a escada do sonho de Jacó e a cruz onde morre o Cristo são arquétipos da ligação do mundo sublunar com o supra-sensível, mas também embutem o conflito arcaico com a ordem divina, exemplarmente ilustrado pela luta de Jacó com o anjo.

― Sendo assim, o senhor está dizendo que Deus não é amor...

― Digo que não é só amor, porque há mais que isso em quem o conjurou. Zoadinha, pára de me chamar de senhor...

― Então, senhor, pare de me chamar de Zoadinha!

Alertada por um telefonema anônimo, Rosana, a filha que visitava o velho mais amiudadamente, descobriu que todo um tráfico se estabelecera no seio do improvável casal. Zoadinha vinha contrabandeando umas pilulinhas mágicas para espevitar o sábio geronte, peças íntimas dela foram encontradas nas gavetas do escritório onde se trancavam até altas horas. Demitiu-a sumariamente.

Uma equipe de médicos, incluindo geriatra, ortopedista, gastro e reumatologista, não chegaram a um acordo sobre o fenômeno: o velho passou a gemer dia e noite, uma jeremiada de queixas e dores se espalhando por todo o corpo. Dava dó de ver.

terça-feira, 9 de novembro de 2010


















Eu que vivi sem pátria
entregue
vaguei

um fantasma
sem rastros,
marcas

nada permanece na alma
cada dia
o vazio

exausta
durmo

domingo, 7 de novembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 9

Aldeia dos Quatro Montes


(se desejar ler os capítulos anteriores: Cap.01 a Cap.05, Cap.06, Cap. 07, Cap.08)

9

Maria entrou com a tarte num tabuleiro de madeira que colocou na mesa ao lado da que Ana Luísa e António Augusto ocupavam.
- Humm… Que cheirinho!
A Ti Joaquina pegou na faca e cortou duas belas fatias.
- Ora agora, digam-me lá…
Ana Luísa cortou um pedacinho e provou.
- Minha senhora… O sabor ainda é melhor do que o aroma…
- Aqui a Ti Joaquina é uma cozinheira de mão cheia… Mas, sinceramente, ainda não conhecia esta sua especialidade.
- Pois, senhor Doutor Juiz… Só a posso fazer quando as camoesas estão no ponto certo!
Entretanto, o senhor Director e Pedro levantaram-se e pensavam ir tomar o café ao balcão…
O senhor Director fez questão de ir à mesa congratular a Ti Joaquina.
- Minha senhora… Divinal! Puramente divinal a tarte de hoje.
- Ó senhor Director… Que até fico corada de tanto me gabarem… É uma tartezinha, não tem nada que saber… Será das camoesas que este ano estão muito cheirosas.
António Augusto secundou os elogios do senhor Director e convidou o senhor Director e Pedro a tomarem com o café com eles.
Como ainda não se conheciam, o senhor Director apresentou Pedro a ambos.
- Folgo muito em conhecer o filho do senhor Salústrio. Seu pai já me tinha falado de si. Como estão as coisas em Angola?
O senhor Director aproveitou para entabular uma conversa com Ana Luísa. No entanto, o tom que Pedro usava para falar levou-a a ficar atenta.
- … e acabou por falecer, em Setembro.
- Meus sentimentos.
Por momentos, o silêncio instalou-se à mesa.
Maria apareceu com os quatro cafés. E a conversa, voltou.
- A Ti Joaquina tem uma mão para esta tarte…, referiu Pedro.
- Para mim, que estou em 4 Montes há dois dias, tem sido uma sucessão de descobertas… A torrada de pão centeio com mel… este almoço… Vocês têm aqui algo a que nós, que vivemos na cidade, muitas vezes não damos o devido valor. É uma pena que haja tão poucas pessoas a poderem usufruir destas coisas…
- Pois diz muito bem, minha senhora, inflamou-se o senhor Director. Se tivéssemos os meios para poder divulgar a excelente qualidade dos nossos produtos, certamente, 4 Montes apareceria a letras de ouro nos destinos turísticos.
- Minha senhora… Acabou de tocar num assunto que o senhor Director adora, disse Pedro.
- E faz ele muito bem… Ou não concorda?
- Quer dizer… Eu também acho que era necessário haver mais promoção e divulgação de 4 Montes. O problema não está aí… Por exemplo, onde estão as camas para receber os visitantes? Quantos restaurantes, dignos de serem indicados, existem?
- Ora…, interrompeu o senhor Director. Roma e Pavia não se fizeram num dia… Em começando a procura, a oferta teria que se ajustar…
- Pois… E qual a capacidade da oferta crescer? Quem iria investir? Mesmo na produção agrícola, o envelhecimento é galopante. Os jovens não querem ficar amarrados a 4 Montes. Acham que, aqui, as possibilidades de crescimento são diminutas.
- Mas, diga-me… Então o que o trouxe, de novo, para 4 Montes?, questionou António Augusto.
- Preciso de tempo para repensar a minha vida… E, para isso, 4 Montes é insuperável.
Ana Luísa não alcançou, imediatamente, o que Pedro queria dizer. Mas pensou que também ela estava naquela mesma situação.
- Concordo, plenamente, consigo. Eu própria estou aqui em circunstâncias similares… Felizmente, o meu bom amigo António Augusto teve a amável ideia de me convidar a conhecer esta terra. Pela forma como ele se referia a 4 Montes, já tinha percebido que algo de diferente haveria aqui… Mas a realidade consegue superar o que tinha imaginado…
- O meu convite teria sido feito mesmo que 4 Montes fosse algo menos bom… No seu caso, e se me permite, o que a Ana Luísa mais necessitava era de uma mudança de ambientes.
- Tem razão… Bem precisada estava disso.
Pedro percebeu que o rumo da conversação tinha deixado Ana Luísa pouco à vontade. Ele próprio se sentiu tocado por essa sensação de desconforto.
O senhor Director achou que estava na hora de intervir.
- Posso sugerir um digestivo para terminarmos com chave de ouro este nosso encontro?



(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Rrose Sélavy

quando Katherine Dreier pediu a Duchamp
que produzisse um objeto para a irmã
ele lhe entregou uma gaiola contendo
cubos de açúcar
um termômetro
mármore
e um osso de ave marinha, dizendo
Por que não espirrar?

nada permanece
na alma
nem mesmo a exaustão
o vazio

então, por que não fazer qualquer coisa?
como espirrar
irritação que cresce borbulhando
cócegas
e acaba numa explosão climática
e úmida

eu que vivi sem pátria
eira ou beira
ao ócio do sonho
entregue

que vivi somente ao sol
de Espanha
condenado a ser todas as coisas
e as sombras que elas sonegam
ser a sombra das tuas coxas e da tua boca
valvulada

as panturrilhas e a curva macia dos cotovelos
erguer o ventre não é nada fácil
ainda mais depois de espirrar
depois de descobrir que o mundo é uma fachada
onde se movem enganosos autômatos

eu que vivi em todos os lugares
e fui todas as pessoas
a rota de todos os navios perdidos
percorri o éter de planeta em planeta desfolhando
a intocada flor do futuro

na casa da poesia procuro
andar na ponta
dos pés

temo despertá-la
acordar seu tamanho
imenso

ao menos aprendi
EROS É A VIDA

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pra Começar a Conversa

Francis Bacon- Full

Conversar nem sempre é coisa fácil.

Já custou muitas vidas e ainda custa.

Crime de opinião é coisa antiga, infelizmente e a intolerância ainda assombra nossas vidas, desde um passado não muito longínquo.

Quando a conversa é para valer é sempre difícil, expor idéias, abrir o coração, ser sincero.

Começa pelo receio das conseqüências do que vai se dizer, de não ser ouvido, de não ser compreendido, do outro não se interessar, de mudar de assunto ou falar que aquilo é uma bobagem, quando para você é coisa seria.

Já viram como é comum desconsiderar a palavra de uma criança, de um idoso, de um subalterno? Como muitos não se dão ao trabalho nem de prestar atenção no que elas dizem? São pessoas que vão ficando invisíveis. O mundo está cheio de seres invisíveis e não são fantasmas nem anjos nem extra terrestres são humanos mesmo.

Acontece em alguns momentos deles serem ouvidos e aí acontecem coisas perturbadoras surgem os “caseiros” as “secretárias” as “amantes” os “motoristas”, mas para cada um desses existem inúmeros mudos. Entre os invisíveis estão os doentes mentais, portadores de visões desconcertantes da realidade, costumam carregar alguns “pecados” imperdoáveis na nossa cultura: baixa produtividade, poucos limites, conduta social as vezes ”inadequada” e perturbadora. A solução encontrada por muito tempo foi o confinamento para tratamento o que demonstrou-se ineficaz. Não curou só afastou o incomodo do meio social e isto é reconhecido pelo OMS, não sou eu que o digo. O profissional que cuida desses pacientes fica de certa forma identificado com ele e é visto como uma mistura de sábio e louco.

A pergunta que fica é por que se dar o trabalho de conversar?

E não tenham duvidas que é um trabalho e tanto, as vezes nem sabemos por onde começar a conversa.

Só posso dizer que é por aí que a vida enriquece, que apresenta ângulos novos, visões diferentes, que saem da mesmice, que sacudir a poeira pode valer a pena.

A proposta da revista Lowcultura é esta. Ela foi escrita por profissionais, artistas, filósofos e doentes mentais sem identificação e não precisa falar sobre loucura é só conversar sobre a vida. Ela estará aberta a contribuições e a leitura online logo mais e já pode ser seguida.

Nós só queremos conversar.

domingo, 31 de outubro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 8

Aldeia dos Quatro Montes



(se desejar ler os capítulos anteriores: Cap.01 a Cap.05, Cap.06, Cap. 07)


8

A uma das mesas do outro lado da sala, o Senhor Director e Pedro, entretinham-se com umas alcaparras e pão centeio, daquele bem escuro.
- Meu caro, seria uma honra poder contar com uns escritos seus no nosso Mensageiro. Aliás, se me permite a audácia, quando soube que pretendia ficar por 4 Montes durante os próximos tempos, pensei que poderia elaborar uma crónica, ficando o tema ao seu livre arbítrio.
- Agradeço o convite…
- Não, não… Nós, no Mensageiro, é que ficamos gratos se o meu caro Pedro aceitar compartilhar connosco as suas ideias. Sabe… Em 4 Montes, existem poucas pessoas disponíveis para opinar livremente. Muito poucos saberão alinhavar umas linhas que façam sentido… Mas, o que mais me intriga, é que são capazes de tudo dizer e criticar nas tertúlias de uma qualquer mesa de café, porém, se os desafiar para darem à estampa, tornando público nas páginas do nosso Mensageiro, encontram sempre algo que os impede…
- A vida não está fácil…
- Não estará para ninguém… Não esconderei que o nosso Mensageiro vive com enormes dificuldades… 4 Montes não tem empresas de gabarito, poucos são os que acham que vale a pena subscrever um jornal… Mas, para mim, é um desafio que não quero perder! Enquanto puder, o Mensageiro há-de continuar a tentar trazer um pouco de luz a estas mentes.
Pedro continuou a ouvir os planos e sonhos do Senhor Director mas os seus olhos foram divagando pela sala.
Junto à janela, um casal chamou-lhe a atenção.
- Desculpe… Não me lembro daquelas caras. Aquele casal, na mesa da janela…
- Ah… Pois, o meu caro Pedro ainda não conhece o Senhor Doutor Juiz. Se não estivesse acompanhado, teria o prazer de os apresentar. Pessoa correctíssima, de fino gosto e de bom trato… Um Juiz como 4 Montes não tinha há já muitos anos.
- E a senhora será sua esposa, presumo?
- Não… O Senhor Doutor Juiz é um solteirão… A senhora é uma amiga, viúva de um grande amigo, dos tempos da Universidade. Penso até que terão sido colegas de curso.
- A senhora é formada em Direito?
- Desculpe, não me expliquei correctamente… O falecido é que foi colega…
Ana Luísa estava deliciada com o prato que António Augusto tinha escolhido. Quando a travessa chegou à mesa, só reconheceu o frango corado… António Augusto colocou no seu prato, um pouco do acompanhamento e pediu-lhe para provar.
- Mas… é muito saboroso!
- Se lhe disser que é uma espécie de esparregado, acha que acreditaria?
- Diferente…
- É de nabiças e, para além disso, como vê integra batata…
Para Ana Luísa, um esparregado era… um esparregado! Mas aquilo era diferente. E o frango era absolutamente distinto dos que poderia comer na cidade… Muito mais saboroso, sabendo mais a… frango.
A sala foi-se esvaziando de comensais.
Duas mesas, uma em cada ponta, ainda solicitavam a atenção de Maria e da Ti Joaquina. Esta pegou em duas fartas doses de uma sobremesa que ela sabia ser muito do gosto do Senhor Director.
- Ora, vejam lá a surpresa que vos preparei.
Pedro e o Senhor Director, que estavam embrenhados numa discussão sobre os minerais raros da China e do perigo que representava para o mundo ocidental que aquele país controlasse mais de noventa por cento das reservas comerciais, olharam para os pratos que a Ti Joaquina lhes pusera à frente.
- Minha excelsa senhora… Depois deste opíparo repasto, ainda tem a ousadia de nos regalar com esta tarte de camoesas? Tende piedade de nós, pobres sofredores…
- Ti Joaquina, este cheirinho à maçã camoesa é uma tentação a que nem me atrevo a resistir…
Isto dito, ambos se atiraram à tarte, que de morna que estava, se desfazia em sabores únicos…
A Ana Luísa e António Augusto tinha-lhes chegado o odor inebriante da camoesa e da canela…
O Senhor Doutor Juiz atreveu-se a fazer um gesto para chamar a atenção da Ti Joaquina…
- Ó Senhor Doutor Juiz…
- Seria possível provar um pouco dessa sobremesa?
- Maria, traz-me aí a tarte…


(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

sábado, 30 de outubro de 2010

tempo

Atravessei-te numa mirada anterior

E em mim dói tudo no depois

Sou prisioneiro do passado

Nunca cheguei ao presente

Nem tenho o futuro

Onde tens existência...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Fui Eu















fui eu
que acendi a luz
do seu destino
você estava tão perdido
que nem percebeu

Agora fica aí todo prosa
pensando ser
a "sopa primordial"
cheio de si
achando-se especial


eu espero
ressabiada
mau humorada
a hora do seu tropeço

ofuscado pelo brilho
não verá
aquela pedra
que todo caminho
há de ter!

domingo, 24 de outubro de 2010

LOWCULTURA na Casa das Rosas



o conto
e a voz
que conta
o conto


Agradecimentos: Casa das Rosas, Donny, Nicole, Mayra, Luana, Jackson e toda a equipe

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 7

Aldeia dos Quatro Montes

(se desejar ler os capítulos anteriores: Cap.01 a Cap.05, Cap.06)



7
A porta da rua entreabriu-se…
- Dão-me licença?
A Ti Joaquina, ao desviar o olhar para a entrada, derrubou a chávena do café…
- Ó Ti Zé, que raio de mania a sua… Entre, entre…
Enquanto a Ti Joaquina limpava o balcão, Maria voltou aos seus afazeres e Pedro sentou-se num dos bancos altos à espera que lhe fosse servido o café.
- Então Ti Zé como é que vai a vida?
- Queira desculpar a indelicadeza… Quem é o senhor?
- Não me diga que não me está a reconhecer?
-…
- Sou o Pedro…
- O filho do Salústrio…
- Ah!... Já estou a ver… O senhor Engenheiro…
A Ti Joaquina, que conhecia bem a peça, percebeu pelo tom de voz que o Ti Zé usara que não ia sair dali boa coisa.
- O mesmo de sempre?
- Sabe como é…
O Ti Zé era conhecido em 4 Montes pela nomeada de Ti Zé do Quartilho, já que era um apreciador de vinho tinto desde que lhe fosse servido na dose certa: um quartilho *… Nem mais, nem menos. Era a mania dele… Se não fosse um quartilho e se não fosse do tinto, nada feito!
- Ó Ti Zé, não me diga que ainda continua com essa mania?
- Saiba o senhor Engenheiro que esta mania tem cá a sua razão de ser… Mal comparado, e quem sou eu para falar dessas coisas, é como se o senhor Engenheiro mandasse fazer um cimento para uma parede e lhe deitasse menos areia que a medida certa… Se eu beber menos que a dose, cai-me mal… Lá está, o quartilho é a areia para o meu cimento!
A Ti Joaquina desatou à gargalhada.
- Ó Ti Zé… Areia é coisa que não lhe tem faltado!
- Pois… Ora faça o favor de botar aí mais um quartilho…
- O senhor Engenheiro veio de férias? Se bem me lembro estava lá para as Áfricas…
- Não… Vou cá passar uns tempos.
- Faz o senhor Engenheiro muito bem. O filho pródigo à casa torna!
Ao dizer isto, o Ti Zé deu uma piscadela de olho à Ti Joaquina.
- Olhe lá Ti Zé… Dê cá a sua garrafa. Já sei que quer levar mais um quartilho…
Enquanto media o vinho e, usando um funil, o vertia para a garrafa, Pedro despediu-se e prometeu voltar para o almoço.
- Bom rapaz… Pena é que tenha dado tão grande desgosto ao pai.
- Ó homem, que está para aí a dizer?
- Como se a senhora não soubesse… Aquele casamento com a negra de Angola…
- E que temos nós a ver com o coração de cada um? Se ele gostava dela!
- Ora essa…
- Ouça bem, Ti Zé… Agora isso não tem importância nenhuma que ela já cá não mora… Finou-se!
O Ti Zé olhou para ela. Benzeu-se, juntou as mãos como se fosse rezar, olhou para o tecto…
- Deus a tenha…
…….
A sala de refeições da Pensão Moderna abarrotava de clientes… Ao barulho das conversas juntava-se a azáfama das empregadas, duas, que tentavam satisfazer os pedidos.
- Ti Joaquina, duas sopas…
- Para quem?
- Para o Senhor Doutor Juiz…
- Maria, serve aí duas sopas. Vê lá se está bem quente!
Na mesa do canto, junto à janela que dava para o quintal, Ana Luísa e António Augusto desfrutavam a paisagem. Um céu azul como só no Outono se podia apreciar… As folhas que começavam a ganhar tons amarelados e alaranjados e que já cobriam partes da terra. Os talhões de couves e nabiças, perfeitamente alinhadas, como se tivessem sido plantadas a régua e esquadro… Encostadas a um tanque de pedra, uma dúzia de abóboras, das mais variadas cores e feitios, compunham o quadro.
- António Augusto, realmente você tem razão! O Outono é muito bonito!
* quartilho: antiga medida equivalente a meio litro





(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

Fotos do Lançamento da Revista Lowcultura






































Casa das Rosas, 23 de outubro de 2010







quarta-feira, 20 de outubro de 2010

domingo, 17 de outubro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 6

Aldeia dos Quatro Montes


(se desejar ler os capítulos anteriores: Cap.01, Cap.02, Cap.03, Cap.04, Cap.05)



6
Ana Luísa entrou na Pensão Moderna, usando a porta que dava para o mini-mercado. Fez-lhe uma certa confusão aquela casa. Nesta porta era mercearia, frutaria e sabe-se lá mais o quê. Logo ao lado, passara por uma entrada para o café e que dava também para a sala de refeições… E se tinha o nome de Pensão, haveria de ter alojamentos para hóspedes!
No entanto, apreciou o esmero que se via na meticulosa arrumação de todos os produtos…
Vinda lá do fundo da loja surgiu uma moça.
- Bom dia, minha senhora! Em que posso ajudá-la?
Ana Luísa perguntou se tinham lenços de papel perfumado. Com a compra feita, colocou os óculos de sol e voltou à rua. Ao sair da porta, quase era abalroada…
A Ti Joaquina, pois dela se tratava, para evitar o embate, deixou cair uma caixa que trazia nas mãos. Ouviu-se um tilintar de moedas que se espalharam em todas as direcções. Para baixo das prateleiras, para o passeio… Umas rodavam sobre si próprias, outras tiniam…
- Ó minha rica senhora! Então…?
- Ora essa… A senhora não tem cuidado e ainda se atreve…
- Ó minha senhora! A senhora anda-me aí com esses óculos de tapar a luz e depois sou eu que não tenho cuidado? Está bem, está!
Ana Luísa olhou para a Ti Joaquina, tirou os óculos de sol, voltou a olhar para ela… Virou-se e foi-se embora…
A Ti Joaquina ia atrás dela mas a moça pegou-lhe pelo braço.
- Senhora Joaquina… Sabe quem é a senhora? É a senhora que ontem andava a passear com o Senhor Doutor Juiz!
- Pois olha… Tem que aprender maneiras com ele! Onde já se viu? Quase me atropela e ainda se acha cheia de razão! Toda enperiquitada… Até parece que tem o rei na barriga…
- Deixe lá!
- Ai, deixo, deixo… olha, apanha os trocos!
Esbaforida, a Ti Joaquina dirigiu-se ao café.
E quem havia de estar ao balcão?
- Ti Joaquina…
- Olha o meu engenhocas!
Como sempre fazia, pespegou-lhe um beijo em cada face e agarrando-lhe o rosto nas duas mãos, pôs-se a olhar bem para ele.
Pedro, como sempre lhe acontecia, ficou vermelho que nem um pimento.
- Então como é que vai o meu engenheirinho? Chaga assim de repente… Não diz nada… Quase me mata do coração!
Quando acalmou esta manifestação de mimos, lá ficaram a conversar…
Maria, que tinha dado uma espiadela através da janela da cozinha, percebeu que a conversa se tornara séria… Agora, os dois falavam mais baixo. Logo a seguir, a Ti Joaquina agarrou nas duas mãos de Pedro e depois deu-lhe um abraço bem sentido.
- Raio de vida, rapaz! E agora que é contas fazer?
- Vou ficar por aqui uns tempos…
- Fazes bem! Estes ares puros de 4 Montes vão-te pôr fino… O tempo tudo sara!
- Diz bem, mas não tem sido fácil…
- Pedro! A vida tem sido boa para ti… Agora chegou a tua vez de saberes enfrentar essa desgraça… Olha, queres um café?
Levantaram-se os dois da mesa. A Ti Joaquina passou para trás do balcão, tirou o cachimbo da máquina do café, encheu-o, prensou-o e virando-se para trás perguntou se o queria como sempre, curto.
Pedro disse que sim.
Maria veio lá de dentro, da cozinha. Pedro olhou para a moça que se aproximava dele e, a princípio, nem a reconheceu.
- Engenheiro Pedro, como está o senhor?
- Maria…
Pedro estava embasbacado. A rapariguita que vira há não sei quantos anos, transformara-se numa senhora mulher. Bonita, cabelos negros, bem proporcionada de corpo, com as curvas nos lugares certos, olhar seguro mas doce… O sorriso meio tímido pedia que ele dissesse qualquer coisa…
- Puxa… Estás uma mulheraça! Dá cá um abraço!
A Ti Joaquina colocou a chávena do café no balcão fazendo mais barulho do que o necessário.
Ela bem sabia quem tinha em casa.




(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

preciso aprender a desistir (dos meus vícios)

devo confessar que já cometi
poemas

só que poesia é
fogo

poesia escapa sempre
escapa

fumaça de incêndio
(que não há)

na verdadeira poesia não há verdade
só poesia

a verdade é que na vida estamos sós
e a poesia

na vida a poesia é tudo
ou nada

e no entanto a vida pede uma poesia
que falta

mas à poesia não falta
nada

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sem Saída



és infinitamente mais estranho
mais louco
mais roto
que qualquer outro ser humano

veja as contradições
a agonia
esse borbulhar constante de sua alma
arquejante
sem repouso
sem guarita

veja esse olhar cruel que tentas disfarçar
essa voz treinada
adoçada
controlada
esse corpo inchado
esse andar pesado
(bem sabes que as profundezas é o seu lugar)

sonhas que o poder irá salva-lo
Como podes achar
um colo macio
um alento
se a sua pele
só tem veneno
escamas
espinhos.

és infinitamente letal


terça-feira, 12 de outubro de 2010



e pra ver "essa praga de urubu, com que roupa eu vou"?