domingo, 16 de novembro de 2008

Seus atos e verdades suportam a indeterminação?




Foto do espetáculo "Bandoneon 2" de Pina Bausch


“Ademais, se as contradições são todas simultaneamente verdadeiras ditas de uma única coisa, é evidente que todas as coisas serão uma única (...) Assim, pois, os filósofos que afirmam isso parecem falar do indeterminado (aóristós), mas, acreditando falar do que está sendo/ ente (óntos), falam do que não está sendo / não-ente (me óntos). Pois o que é em potência e não em ato é o indeterminado” (Aristóteles, Metafísica, 1007b).

Aprende-se nos manuais de filosofia e de lógica que Aristóteles foi quem formalizou o princípio de não-contradição: uma coisa não pode ser verdadeira e não verdadeira ao mesmo tempo. De fato, diz o filósofo estagira, algo é verdadeiro quando, sendo de determinada maneira, é uma coisa e não outra. No entanto, a determinação,
o horizonte (horizo), surge da indeterminação (aoristía), como a verdade (alétheia) surge da potência do esquecimento (léthes). Assim, mesmo representando uma única possibilidade de determinação, a verdade evoca o espectro de indeterminação donde ela surgiu. É isso que lhe dá força: a indeterminação que ela suporta, e não, apenas, a determinação que ela representa.

No caso da amizade, a verdade de um abraço pode evocar a potência da indeterminação (aoristía) de onde ele surgiu. Nesse sentido,
a verdade traz em si as dificuldades que enfrentou para surgir,
e sugere outras possibilidades de surgimento. É diferente de um falso abraço que não pode evocar uma potência de indeterminação, e que não faz surgir mais nada.

{o aoristo é uma forma de declinação verbal que não especifica se a ação acabou ou não, uma indeterminação temporal}.

3 comentários:

Flávia Regina disse...

Então, toda verdade está sujeita à uma indeterminação?
Verdade é toda determinada coisa, que pode levar à coisa indeterminada... Toda verdade sugere um risco, é isso??

Paulo Henrique disse...

sim, sim, muito risco, e só há uma maneira de não morrermos com a verdade: dormirmos com ela.

Flávia Regina disse...

Putz... Mas como?
Deixá-la fazer parte de nosso cotidiano, porém de modo que seja parte integrante apenas de nossos sonhos?
Mas, viver somente de sonhos também traz riscos... =/