segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Germe de uma riqueza de alguns dias


Foto do espetáculo "Vollmond" de Pina Bausch

No ensaio “Sobre a essência da verdade”, Heidegger se pergunta:
o que faz de uma moeda verdadeira? A comparação entre as moedas, esse é o critério. Mas a semelhança entre moedas de brinquedo não faz com que elas tenham valor de mercado. É algo externo que faz com que as moedas tenham algum valor. Esse mesmo algo externo faz com que o dólar seja valioso e a moeda do banco imobiliário sem valor. Tema grego por excelência, esse invisível que confere valor à moeda é o que a dignifica, justamente, por ser um dissimilitudo, um diferente absoluto (livre).
Por não ser inerente às coisas, o valor muda constantemente. É isso o que Aristóteles chama de vida (zoe ou phýsis): refletir, com o passar do tempo, mais ou menos valor. A lógica é simples: muita cópia, menos valor, ou seja, a produção de moeda provoca inflação (a mesma moeda repetida inúmeras vezes na memória basta,
até um sonho pode virar rotina).
No banco imobiliário isso não ocorre porque não há um mercado vivo.
Em toda sociedade, todo clã, toda família, há o recurso de eleger uma pessoa que não seja exatamente como as outras. Essa tal pessoa seria o valor das coisas que refletem valor, e visível, olha só que beleza. O papel dessa pessoa é estar no centro das relações de troca. Com ela ali, nada de inflação, de instabilidade, como se fosse um banco imobiliário. A pessoa passa a ser motivo e razão da existência das demais, como Édipo para sua cidade.
Ninguém está bem neste jogo, longe da força pulsante do valor que evapora para reacender noutro lugar. Atento à questão, Derrida encontrou um curioso phármakon. No livro A moeda falsa ele analisa um poema de Baudelaire, que foi amigo do socialista Joseph Proudhon, que não gostava mesmo de moedas. A tese de Derrida é que uma moeda falsa que se misture às outras pode ter um efeito terapêutico (libertário). Quando o sistema de valores das coisas passa a funcionar com uma moeda falsa, percebe-se que não era a semelhança entre as moedas que lhes conferia valor. Para exercer essa tarefa, a moeda falsa precisa ser semelhante às outras o suficiente para enganar, mas diferente o suficiente para instigar uma reflexão. E o mais interessante, a moeda falsa pode dar origem a um novo sistema de valores, pelo menos, enquanto refletir algo de estranho, de invisível:

“A moeda falsa talvez fosse, também, para um pequeno especulador, o germe de uma riqueza de alguns dias”. {Baudelaire, C. Pequenos poemas em prosa (trad. Gilson Maurity), p. 167}.

Alguém poderia questionar: então, tudo o que está vivo perde o valor? Sim, mas, uma sociedade que reencontre suas moedas falsas pode mudar e continuar valiosa, sem romper a união, posto que nem toda união é covarde. Ah! Estava esquecendo, Derrida chama a moeda falsa de sorte (tykhé).

2 comentários:

Anônimo disse...

Vou ficar com o Derrida!

missosso disse...

tiké & automaton, no fundo vltamos a essa tensão, essa dialética; mas atenção ao valor do engodo: á moeda falsa que pode libertar o valor.