quarta-feira, 28 de julho de 2010

a vida depois

Qualquer tragédia que nos atinge tem efeitos imediatos e duradouros; morrer, em certo sentido, é sempre traumático, já que o mais difícil não é sair da vida, mas aprender a morrer. Pode até parecer um truísmo, uma tirada acaciana, maiormente no meu caso, que tive a bênção da chamada boa morte: depois de 83 bem vividos anos, morri como nasci, balançando na rede. Sim, sou um defunto-autor, ou um autor-defunto, se preferirem; antigamente, só os gênios, os gatos, os loucos e os médiuns davam voz e vez aos desencarnados, hoje em dia, com a computação quântica, tudo é possível, até fazer o nada agir sobre um circuito integrado. São os mistérios corriqueiros da informática.

Não dêem ouvidos a essa peta de “narrador inconfiável”, a passagem de plano despe a alma de certas mumunhas que tanto atravancam vocês, que estão aí. Por exemplo, não vou lhes esconder o destino que, cedo ou tarde, nos unirá: assistir da primeira fila o esbulho da família no pós-óbito imediato; minhas filhas tiveram de azeitar com moeda sonante os gonzos da máquina funerária a cada vez que ela se moveu na opereta bufa que foi o meu sepultamento. Morrer não é fácil, mas se aprende, viver é que é uma aventura sem garantias. Sinto muito se ofender crença ou teoria de quem leia estas mal acabadas linhas, mas aqui se trata de uma tanatografia, portanto, nada de dourar as infâmias com a tinta da melancolia, nem de esboçar as baixezas com a pena da galhofa, vou, isto sim, escarificar as cascas de cebola do vivido em primeiríssima pessoa.

Fiz carreira vitoriosa como promotor e atingi a Procuradoria de Justiça, embora tenha me faltado munição para chegar a desembargador; só agora, no entanto, me dei conta da enorme disparidade de status legal entre o nascer e o morrer. Neste belo e pujante país, nasce-se privadamente (se meios os genitores houverem), mas só se morre nos braços descuidados da coisa pública. Cometi a molesta indelicadeza de morrer de madrugada, o que complicou bem certos passos, como obter atestado de óbito do médico tratante e garantir que o rabecão da prefeitura viesse retirar meu presuntivo corpo a tempo e horas de um condigno velório. O médico, amigo de uma das minhas filhas, deixou o atestado na portaria do prédio; já o translado do corpo precisou de um “cafezinho” para agilizar. Nessa, foram logo milão.

A outra filha, como a mais velha fruto do primeiro casamento, foi avisando a família por telefone, enquanto o meu caçula enchia a cara no primeiro boteco que encontrou aberto. Esse menino me preocupa. Sabe aquele negócio de maquiar, enfiar algodão na napa e orelhas, passar baton, vestir o morto?, pois bem: é à parte. O motorista do carro fúnebre ligou, chegaram até rápido; foi sorte, estavam por perto. Sempre em espécie, mais quinhentão. Ao desmaterializar, ganha-se o singular poder de ouvir os pensamentos dos outros, os vivos, de modo que acompanhei a azeda discussão externa e interna sobre a decoração do velório e a escolha do féretro. Minhas filhas pagaram tudo (com os estafermos dos meus genros dando pulinhos), regateando aqui, hesitando acolá, premidas entre os ambíguos sentimentos em relação a mim e o medo de passar vergonha diante da parentada.

Quem não tem dinheiro, ou vontade de gastá-lo com o finado, pode requisitar gratuitamente do poder público uma urna popular, chamada eufemisticamente de modelo standard ― confeccionada num horrendo compensado de madeira e provida de 2 alças que nunca devem ser usadas como tal. É um interessante exemplo de parceria público-privada a atuação das agências funerárias conveniadas aos cemitérios: entre coroas (de flores naturais e artificiais), sala de flores completa, lacre ecológico, paramentos (conforme a religião), véus, velas ¾ e a taxa de sepultamento, mais (para as meninas, menos) três milhetas e meia.

O terno sextavado de madeira que me coube foi um modelo “luxo”, logo acima do standard, mas abaixo do super luxo e distante anos-luz do alto padrão. Este último sim, um objeto de desejo para os ectoplasmas: urna italiana, 6 alças douradas tipo varão, forração acolchoada na caixa e no tampo, travesseiro, babados e sobrebabados em renda, acabamento externo em verniz de alto brilho, opção com e sem Cristo dourado no tampo trabalhado em alto relevo e visor amplo. O visor, de grande utilidade, permite aquele derradeiro beijo a caminho da cova, sem o incômodo do contato com a carne fria. Vocês talvez nos censurem tais veleidades, mas o fato é que todos dão sua bocada; as coroas e arranjos exibiam secas strelízias, girassóis liofilizados e murchas orquídeas, tangos e gipsofilas. Pétalas de rosas e lírios que deveriam cingir minha rígida figura foram substituídas por popularescos crisântemos; minha mulher, que entende de flores, percebeu e, pudicamente, engoliu mais essa, que havia consumido duzentinhos extra.

A magistratura arraigou em mim o conceito da justiça; embora as pessoas não gostem de ouvir, o certo e o errado existem, assim como existem aqueles a quem compete guiar e exemplar a comunidade. Que estes últimos estejam nas classes superiores e tenham que ser ajudados na tarefa de educar a multidão, causa espécie aos hipócritas. Na única vez em que inverti este proceder, na criação dos filhos, fui muito mal compreendido por minhas filhas, Morgana, a médica, e Cordélia, advogada. O certo é que nunca perdoaram o ter me casado apenas um ano depois de perder a mãe delas para o câncer ― de estômago, como mamãe. Naquela época, eu e meus irmãos fomos distribuídos entre tios e avós; a minha sorte foi tia Mirtes, professora de inglês em Visconde do Rio Branco, ter me dado casa e estudo. Só um irmão veio de Minas para o meu enterro, o pobre veio de ônibus, o que atrasou a bênção final. Quatrocentas razões convenceram padre e coveiro a esperar.

Protegi demais a meu filho, mas porque ele era o mais frágil, o menos preparado para a vida; não agüenta pressão, coitado, voltou a beber agora que se separou, e isto depois da pancreatite que quase o arrebenta de vez. Papai também se acabou na bebida; muitas vezes fico me perguntando se os genes não brincam com nossos destinos. Tudo se repete, tudo volta. Meus últimos anos foram como os primeiros, de muita necessidade e apertura. Estava há dez anos no casarão da Barra Funda, herança da família de Creuza, morando junto com a irmã dela e à espera de sair o inventário de um terreno na Avenida Brasil que poderia nos tirar a todos do cortado. Enquanto tive bens para torrar com ele, Benjamin era papai pra cá, papai pra lá; desde que aquela argentária da mulher e a golpista da filha o jogaram na casa dos velhos, ele logo transferiu os dengos para a mãe. Nem palavra mais me dirigia.

Do lado de cá, as coisas são desorganizadas por demais. Não sei bem como lhes explicar isso, mas acontece que o além-túmulo não tem, assim, como dizer?... uma forma! No éter tudo está a trouxe-mouxe, como que jogado, não há administração, chefia, pessoal encarregado, etc.; é impossível distinguir ordem ou hierarquia, direitos e deveres inexistem, vige uma anarquia meio com cara de abandono. Confesso que esperava receber instruções de Deus, anjo ou demônio, quem sabe um uniforme, sei lá, até mesmo um julgamento serviria. Nada de nada. Espíritos nem bons nem ruins vagam a esmo neste lugar, que não é propriamente um lugar, e se resignam a uma duração que não guarda semelhança com o bom e velho tempo. No começo é angustiante, depois passa, aliás, essa é a única regra fixa por estas bandas: tudo passa. Encontrar familiares, amigos ou mortos ilustres? Só por um grande acaso, que também não ocorreu a qualquer dos meus novos “vizinhos”. Queria tanto encontrar mamãe e tia Mirtes...

Minha neta, filha do Benjamin, se casou há 3 anos e não fui convidado. Acusei o golpe, decaí; o diagnóstico: demência de Lewy. Exames mostraram o meu cérebro coalhado de bolinhas de proteína enovelada, restos dos meus destroçados neurônios. Comecei a variar da cabeça, a falar sozinho; mamãe me aparecia todos os dias. Já não conseguia andar; a prótese de quadril, resultado de um atropelamento criminoso que sofri, desgastara. Ouvi o médico, naquele jargão frio deles, dizer a Morgana na minha frente que já não valia a pena operar. A velha carcaça não pagava mais pule de dez. Como promotor sempre obtive a condenação daqueles que a grita pública exigiu; não sei porquê, ultimamente via nas paredes o rosto de um mendigo atropelado pelo filho de um empresário, rapaz este que alcancei inocentar. Ajudei o amigo, perdi a desembargadura.

Viver vicia. Os mortos só se ocupam do que fazem os vivos, os seus vivos, aqueles que de alguma forma lembram deles ― a mesquinha intriga familiar é o único jogo que motiva os que aqui estão. Porque morrer é entrar no Aleph, o ponto de onde se observam simultaneamente todos os lugares, coisas e pessoas do mundo. Com a nada desprezível vantagem de se enxergar dentro. Porém, com a maior TV a cabo do universo ao dispor, as avantesmas só assistimos ao mesmo triste programa de auditório mundo-cão de antes: a nossa minúscula vidinha. Os fantasmas vão desvanecendo progressivamente, entram numa letargia intermitente; cada vez que alguém ainda chora por ele, lembra dele, com amor ou raiva, toda vez que um neto pergunta quem é aquele da foto, ou do filme caseiro, toda homenagem ou reza em dia de finados, cada pesquisa no Google, produz um evanescente despertar. Ser esquecido é a morte dos mortos.

Sinto uma falta tremenda da Dita, minha cachorrinha; hoje, ela é a única que ainda pensa em mim sem uma ponta de ódio. Cordélia está triste, ainda não sabe que uma melancolia vai cavar um buraco no seu coração durante um ano, mas ela e a irmã vão superar; Creuza também, tem bons sentimentos, a coitadinha. “Colegas” me asseguram que a melhor política é o desapego, que não há melhor remédio para o nada vindouro; mas não adianta, quem é senhor de domar o seu próprio eu? Este o busílis: o EU é a criatura de apetite mais voraz que pusemos dentro de nós, exorcizá-lo é que são elas. Funciona como Jesus Cristo: começa dizendo que é irmão, igual a todos nós, depois fala que é Filho de Deus, e acaba por se alçar ao triunvirato com o Pai e a pombinha. Largar de mão desse judeu argentino ― sim, Jesus era argentino, mas é uma história longa demais para começar a contar agora ― que mora dentro de nós é o verdadeiro caminho da libertação. As almas não são penadas, apenas vão ficando alien(adas).

Deixei uma bomba no meu testamento, mas os meus parentes ainda não sabem. O importante é que fui velado na sala com vista para o vale do Pacaembu do Cemitério do Araçá. Rara naquele inverno chuvoso, uma tarde quente marcou a minha despedida; o pôr do sol banhou a cerimônia de adeus numa luz apaziguadora. Saí dos cafundós de Minas Gerais e venci em São Paulo; meus ossos jazem num belo mausoléu de um dos mais tradicionais campos santos da capital. Fui enterrado no topo da cidade. Meu filho veio, mas não chegou perto da campa. Com o que vi no seu coração posso contar; enquanto ele viver, estarei acordado.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Bombaquim, bombaquim, deixa nós passar...

.

Tudo bem, envelheci

E esperava uma morte tranqüila

O que já era brincadeira na infância

..

Brinco de bombaquim[1] na velhice

“Carregado de crianças pra Jesus criar...”

Pêra ou maçã?

Não conhecia as frutas que nos levavam atrás das escolhas

...

Mas vejo as doenças que levam meus amigos “pra Jesus criar”

Sei que minha vez vai chegar (de escolher o céu ou inferno), como no bombaquim

Mas é que tô ficando sozinho

E é muito ruim

Não poder mais brincar...

*

(edmar)



[1] Uma brincadeira muito nordestina em que uma fila de meninos passam em baixo de um arco feito por dois meninos que perguntam ao último, a quem prendem, se ele quer uma fruta ou outra. Conforme a resposta, o interrogado passa a fazer parte do "cabo de guerra" da criança que foi escolhida (sem saber) para uma briga final. A melhor explicação pra “bombaquim” seria a tradução “bom barquinho”. Porque o passante na brincadeira ficava de um lado ou de outro dos dois que perguntavam os que cantavam “bombaquim, bombaquim, deixa nós passar, carregados de filinhos pra Jesus criar”: se pêra atrás de um, maçã, atrás do outro. Podia ser qualquer fruta. As mais difíceis, que não conhecíamos no nordeste era pra dificultar a escolha. Como se em cada margem do rio...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

já estão entre nós as crianças com 3 cadeias de DNA

e se sesse
que fosse

pode não ter havido
um só Big
Bang

miríades de milhões

imensas cloacas
vomitando/devorando
mundos

misturando pedaços
colando com
cuspe

até porque não se educa crianças
índigo
sem um quê

de insanidade

domingo, 25 de julho de 2010

a imprensa deve usar burca?

acostumou a nega na vida
luxenta
agora sustenta!

sou uma velha louca
casa
muquinfo habitado por algaravias
vozes
em guerra desconcertada
demolição

mas como despir o hijab, niqab, shador
sem o qual
a verdade não é dizível?

por que cobrir as mulheres
mistério e magia
de zoe que todos devem
parir?

cavouco que não
alomba
não aprende

é fundamental bouleversar
o mundo
a razão nos in
completa

você chama
eu acendo

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Brasileigos


Ouviran o Ipiranga, mas não nos ouviram
Nos deixaram as margens
Esse povo heroíco
Se há igualdade, onde?
Nem com brasso fraco, nem forte
Liberdade, só com seio nú e bunda de fora!
Estômago, vasio, desafio a sensura
Moral, bons custumes, hipocrisia.
Ò pátria amada!
Salve, salve á desigualdade!
O Brazil, simbolo de amor e esperança
Ò ilusão (eterna tu és).
Morte do futuro comtada no passado
Em noços bosques, nem folres ou vida
Favelas!
Brilha no séu dessa pátria;
Fogos, balões e balas perdidas
Quen teme a morte?
Filhos de seus filhos neste solo é burguês
Eu filha de nimguém busco a minha ves!
E assim, ainda açim tú és amada Terra de Santa
Èla é quem carrega a cruz!

(Marília Machado)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

a vida como ela é...


como já dizia o Nenê Berola, amigo das antigas
“o cão que morde, não lembra
o cão mordido, nunca esquece”

esta é uma lenda de priscas eras, do tempo em que as diligências
sacolejavam na poeira do Velho Oeste
os animais falavam
e os dinossauros ainda se arrastavam sobre a face da Terra

férias escolares, andava aí pelos dezessete, dezoito certamente
que não, pois ainda não votava, mas nessa época ninguém votava
só que essa é outra história; vai que fui pra Bahia
na boleia de caminhão

a namorada não quis, ou não pôde, ou havia um programa
na família; resultado: não foi comigo
escalei o amigo Tonho Brown, outro das antigas

bicho (como se dizia naquele então), eu tava amarradão
a brota era papo firme, cabeça feita; olhava, sentia e pensava
o mundo como eu

me explico: não quero dizer que ela pensava igual
a mim, mas que tinha sacadas próprias, originais, não tinha
aquela velha opinião formada sobre tudo

ah, Morro de São Paulo, casa de pescador, banho de latão
praia de manhã, PF uma vez por dia e forró à noite até o dia
clarear ― mamão com açúcar

Tonho ficou injuriado comigo nos rasta-pés: mulherio
chegando junto e eu só saindo de lado, jogando na retranca
cobrindo a zaga, afinal, tava paradão na mina

“Escuta, se é pra você ficar aí de vacilão, vou te contar...”
e por aí ele foi: arrodeou, pigarreou, enrolou, mas desembuchou
que tal e cousa e lousa e maripousa ― tinha furunfado com a mina

a minha mina! e o pior é que não foi vez
foram vezes! daí só deu Maysa na vitrola do coração
meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar...

saí da função cuspindo infâmias, que ele não era amigo
coisa nenhuma, um traíra, duas-caras, um pústula!
(essa eu tinha acabado de aprender num folheto)

a viagem tinha acabado, deixei o recinto pisando duro
degustando o fel da crocodilagem, ruminando o veneno da perfídia
rumo do barraco do pescador, Gonçalo, baiano sangue-bom

encontrei o Gonça num boteco e despejei-lhe minh’alma
ferida de Otelo paspalhão;
arreganhando os belos dentes de imaculado branco

Gonçalo me conta a saga da sua recente desdita,
a burguesinha veio, se hospedou na sua humilde
cabana e dividiram cama, mesa e sonhos

jurou-lhe eterno amor, despediu-se em lágrimas, suplicou
que viesse para o Sul Maravilha, dormiria na edícula
da casa dos pais, até arranjar situação

“pois é, meu rei, não teve mole pra mim, não,
fui parar num cortiço em Sampa e, do sanduíche
de mortadela, só vi foi o dormido pão”

a gata já tinha se ligado em outro, burguesinho como ela
Damares fez dele gato-sapato, jogou ele abaixo de cão
“pe-pe-peraí Gonçalo, Damares?, mas, mas...”

você já adivinhou?, que ela era ela e o outro era eu?
Gonçalo se virou para o dono do estabelecimento
“Josafá, bote aí uma dose de amansa-corno p'a nós
mas capriche, que o caso é grave, visse?!”

Tonho se juntou a nós e daí não lembro mais nada
só que terminamos a noite encachaçados até à alma
no único orelhão da ilha berrando para o pai dela:
“por favor, acorde ela, é caso de vida ou morte”

“você quer me explicar que palhaçada é essa?”
“Damares, não fica brava, nós só te ligamos
pra dizer que a gente te ama pra caraaaalhoooo!”

é o que eu sempre digo:
enquanto não der o sinal,
ainda é recreio

sábado, 17 de julho de 2010

O Jogo da Gata-Parida

Mesmo com a razoável habilidade para desenhar que sempre tive, não consegui acrescentar nada à descrição que consta no boletim de ocorrência: branco, altura média, olhos e cabelos castanhos, nenhum sinal característico. Mais inexplicável é o que aconteceu com o rosto desse sujeito que ficou quase uma hora comigo: por mais que me esforce, não lembro de nenhum traço, ao mesmo tempo em que não consigo esquecê-lo. Sonho com uma face sem marcas, a testa normal, sem sobrancelhas grossas demais, nem um nariz torto, ou um queixo menor do que deveria; freqüentemente me aparece uma máscara de olhos vazados como nos filmes do homem invisível ― e acordo molhado de suor frio, o coração alvoroçado, ainda ouvindo aquela voz que também não me sai da cabeça.

Passados seis meses, meus agressores ainda me visitam todas as noites. É um mistério, um quebra-cabeças que não atinjo resolver ― não lembrar e também não conseguir esquecer. Vá entender essas coisas.

Fazia dois anos que o meu nome integrava a lista de profissionais fixos da Dental Care, clínica de clareamento dentário para chiques, abonados e famosos. A clientela VIP, as constantes aparições na mídia, as diversas unidades franqueadas, o instituto beneficente para crianças que os sócios divulgam no país todo, enfim, tudo isso fez e faz da DC a meca dos odonto-cosmetologistas. De fato, há um tanto de maldade e outro tanto de verdade nessa denominação, os produtos clareadores corroem essa camada mais externa que é o esmalte; quer dizer, procuro não pensar que estou prejudicando a saúde futura da dentição dos meus clientes, mas que os estou ajudando na questão da imagem e da baixa auto-estima. Além do quê, dei um duro danado para fazer parte de uma estrutura sólida e altamente profissional ― e isso ninguém diz.

Sexta pré-feriado, final de tarde, dispensamos as secretárias mais cedo porque havia um congestionamento-monstro na cidade devido ao Tiradentes que caía na segunda. Só restavam três profissionais e um cliente na clínica; eu mesmo já não estava atendendo e fazia uns telefonemas de acerto de agenda para a semana seguinte. A minha colega me chamou pelo ramal interno à sala dela, achei que ela ia me consultar sobre alguma retração gengival no cliente que estava em atendimento ou algo assim; não podia estar mais distraído quando entrei no conjugado vizinho e dei de cara com dois sujeitos de pé, um deles me apontou imediatamente a arma e anunciou o assalto, enquanto o outro remexia as gavetas e a minha colega, completamente aparvalhada, jazia sentada na própria cadeira de trabalho.

Resumindo: eram quatro bandidos, enquanto três deles saíram com as minhas duas colegas no carro insulfilmado de uma delas para sacar dinheiro em caixas eletrônicos, o outro ficou lá comigo.

Até aí me sentia seguro, os caras demonstraram muita segurança e não pareciam drogados nem tensos. Conheciam detalhes do funcionamento da clínica, tanto que sabiam que uma das meninas era também administradora e estava com o cartão da empresa; entregamos todo o dinheiro que havia em caixa e eles ainda embalaram alguns antibióticos, materiais e aparelhos que tinham valor de mercado. Quadrilha especializada, disse a polícia. Um deles se passou por cliente, fez orçamento e marcou o último horário de sexta. Comunicavam-se por rádio, eu fiquei como garantia de que elas não iam tentar nenhuma besteira; qualquer erro, eu pagaria com a vida. As regras estavam postas.

O “meu” bandido me levou para a sala de reuniões, era lá que a equipe se reunia e onde também eram filmadas as eventuais entrevistas; havia ali uma tela, data show, mesa ampla para cursos e palestras, estantes de madeira clara e fotos em preto e branco enquadradas nas paredes. Nunca mais voltei a entrar nesta sala. Para matar o tempo, o sujeito começou a brincar comigo: largou a arma numa das cadeiras anatômicas, girando o assento para fora da mesa. ― É tipo uma dança das cadeiras... ― disse, com aquela cara de nada.

― Um joguinho pra passar o tempo, doutor, presta atenção, ele tem três partes: a primeira parte se chama “jogo da gata-parida”. Como o senhor deve saber, as gatas prenhas precisam de um lugar seguro quando vão parir, elas buscam uma toca onde a ninhada fica escondida, precisam do melhor assento... como nós dois aqui... Doutor, doutor, o senhor não está me ouvindo...

Ele tinha razão, não conseguia tirar os olhos da arma sobre a poltrona giratória. Foi até lá, destravou a pistola e voltou a se afastar.

― Esta é uma ponto-três-oito-zero, automática, assim como deixei ela, é só pegar e apertar o gatilho, não tem erro: o senhor só precisa ser mais ligeiro que eu... ― afastou-se ainda mais e ficou numa das pontas da mesa me encarando. ― Mas vou ser justo e lhe avisar que nunca perdi neste jogo. Aqui, dentro do seu consultório, sou eu que tô na desvantagem da gata, não acha?...

Dei uma olhada para a minha barriga, tenho trinta e quatro anos, pratico tênis desde os dez; é verdade que uma barriguinha começa a despontar na minha silhueta, mas o fato é que me encontrava bem mais próximo da arma do que ele. Ninguém conseguiria ser tão rápido; avaliei que dava tempo de chegar à cadeira, empunhar o trabuco e dominar a situação. Dei um salto e catei a arma, que tremia na minha mão. Ele nem se mexeu. Não fiz exército, nunca tinha pegado uma arma de fogo de verdade na mão.

― Muito bem. Agora vem a segunda parte do jogo, chama-se “rato-ou-leão”; doutor, não adianta ter o poder, é preciso estar pronto pra usar... agora vamos saber o que você é... ― começou a caminhar, bem devagar, na minha direção.

― Pára aí, não quero atirar! ― me espantei ao me ouvir berrando. Não queria mesmo disparar, mas ele continuava a vir na minha direção, com ar de sonso. Mirei nas pernas: ― Click-click-click! ― Descarregada! O resto da cena passou-se numa velocidade inacreditável.

― Então é leão, né, seu rosca? Sabe o que me incomoda em gente que nem você? É que vocês não ouvem quando a gente fala, te disse que nunca perdi essa parada e não adiantou nada, né? Você nem quis saber como é se chamava a última parte do jogo, sabe como chama? Sabe ou não? ― ele me pegou pela gola da camisa junto com um tufo de cabelos, empurrou minha cabeça na mesa e encostou o cano de outra arma na minha têmpora enquanto berrava na minha orelha.

― Não, não sei... pelo amor de Deus, não atira!...

― Chama “tenho cara de otário, tenho”? Escuta aqui, acha que eu ia dar esse mole prum coxinha como você? Só você é que é esperto, é? Se as tuas amigas der vacilo, te queimo seu filha da puta!... morou?, entendeu agora quem está no comando aqui?

sexta-feira, 16 de julho de 2010

bufê por quilo


― Apois, Sancler é nome sim, sobrenome é Santos, Sancler da Silva Santos, eu que vou servir a senhora... tá certo, senhora não: VOCÊ; entendi, se avexe não... cinzeiro?, aqui é área de fumantes, pode sim... lhe trago o menu, já, já.

― Carta de vinhos?, é à parte, trago já pra se... pra você, minutinho só... é sim, sou novo aqui, quatro meses vai fazer que peguei esse serviço...

― Do norte não, da Bahia, do litoral... cidade mesmo é mais pra diante, a praia chama Buraquinho, a senhora ri, é?... vixe, tem razão, falei de novo!, mas não lhe tiro por velha, não, é o respeitinho, que é bom e todo mundo gosta...

― O seu pedido. Bom apetite. Hmm, acabo meia noite meu turno, depois vem outra turma... ah, vou direto pra casa, cidade como esta não é lugar pra ficar bestando, não.

― Ah, essa não... oxe, se eu sei quem é, o da novela não é não?, magina, dera eu ter a cara dele... já tive sim, era pescador, mas meu tio Gedimar me levou pra trabalhar no bufê da mulher dele... é mais regular, num sabe?

― Bufê por quilo, ah, se era bom não sei, o caso é que não tinha outro, todo mundo na cidade ia lá... Hehehe, era não, Bar do Buraquinho, essa é boa... Chamava Bufê e Restaurante Tabu, de antigamente chamava Taboo, mas ninguém acertava de falar “u” no lugar dos “ó” dobrado...

― Mas será possível que nunca ouviu falar do caso?, deu até no Jornal Nacional, é ruim de esquecer uma loucurada daquelas... pois foi, começou que Gedimar, meu tio, deu de ficar de saliências com a filha da cozinheira...

― Pois então, o mal todo foi esse, não era moça rapariga, não, inda pra mais de menor... Tá é besta? Nãnãnina, sou disso não, meu negócio é mulher feita, lá na boa terra é assim: emprenhou tem de casar, deflorou, vem o pai da moça falar, pedir satisfa; aqui é um destampatório lascado, pode tudo, de tudo se vê por aí...

― É, não posso ficar proseando muito aqui, o maître já tá de olho... claro, sua casa?, ah, mora sozinha?, vamos, sim, mas... antes de ir preciso de tomar um banho, sabe?... ah, lá na sua casa?, claro...

― É Sancler, já tinha esquecido?, o seu ainda alembro, é sim, é diferente mesmo, já desgostei dele, hoje não ligo, nome é nome, não quer dizer nada, o que às vezes abre portas é o sobrenome... que carrão da porra, banco de couro, GPS, painel digital... tá pago?

― ...tem disso não de flex lá na minha terra, madame... ah, madame também não pode?, apois, mas o que eu gosto é de mulher boa... das má gosto também, verdade, mas gosto é assim, perfumosa, como... você. Hmm, bairro bom esse seu...

― Como é que acabou a história?, entonces, acabou nada bem, Vilma, a mulher de meu tio, a dona do restaurante, descobriu o malfeito e ficou como virada no cão, chamou Gedimar no restaurante e fez cabrito assado, que ele adorava, mas na pinga foi que ela lhe deu à larga, bebeu até cair, feito peru de véspera, no que ele ferrou no sono, ela pegou e rachou-lhe o quengo à machadada... ué, mas se foi tu que me pediu pra contar?...

― Eita condomínio ajeitado... vixe, um por andar!, tá bem de vida, hem? Ah, ainda quer saber mais?, depois não agüenta... então... caramba, gostei dessa varanda, ói lá, quantas luzes tem esta cidade de meu Deus!

― Vai esquentar a água da banheira pra mim? Coisa boa... quero sim, mas ponha gelo não, que uísque e café eu gosto é puro... Ai mas tu não sossega, mulher é bicho curioso... tá certo, tu é sabida mesmo, até onde contei não tinha porque a história ir pra televisão, pobre matando pobre tem todos os dias, né não?, o que ninguém podia pensar é que ela não parou: quebrou o cachaço de meu tio Gedimar e foi picando ele todinho, desossou, e daí fez carne de panela, o bufê dela serviu de graça uma semana inteira de carne assada, buchada, picadinho... comi sim, mas não foi só eu, o povo todo comeu, o gosto?, ora, tem gosto de carne, sei lá, não é diferente das outras...

― Que foi que te deu, tu tá caladinha agora, tá com medo é?, hahaha, mas se eu sou canibal todo mundo é porque também comeu... que que é?, fica de frescura não, acha que vou te comer, é?

― Mas não foi pra isso que tu me trouxe aqui?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O BEM MATERIAL


Porque éramos simples,
o nosso espaço
era suficiente
e ainda sobrava espaço.

E assim a comida,
a roupa,
a coberta,
- nada nos faltava.

Era a beleza pura
a lua,
o orvalho
num ramo de trigo.

Já não somos simples,
o bem material
é preço sem valor.


foto: UOL

terça-feira, 13 de julho de 2010

METROpolitano





Vida de neguinho, você sabe como é...

Mas, aí mano, sem menesquência nem perhaps, com nóis não tem presepa: já comecei no cavaquinho de pivete; seguinte, lá na quebrada que nasci era o pagodinho fundo-de-quintal, naquele esquema de tocar na roda dos boteco de porta de garagem, mesa de snooker mata-mata, mesinha de chapa e cadeiras de plástico. Detonava. Mas aí mano, a gente vai subindo na escala, estuda e tal, vem o chorinho, você é chamado para os grupos da velha guarda, os regionais, daí só dá os fera, chorões das antiga mano, só cobra criada, neguinho que toca jazz, samba-rock e o carae; hoje eu tenho ce-ene-pê-jota, vou lá, passo meu recado e ainda dou nota e a porra toda, me empresariei, seguinte mano: meu lado adiantou, melhorei de vida, minha goma agora é na Vila Gomes, tô passado nos pano, vida de neguinho, bróder, ficou pra trás, tô pagando forte de bacana...

Mas não é que abandonei os chegado, sou da world music mas não abandonei o samba, não, virou mexeu, tô na minha área, e até rola umas canjas toda mão que chego lá, o bagulho é louco, só que... não era isso que eu ia contar.

Foi como foi, assucedeu... uma tarde que fui tomar um café com uma amiga produtora, Mizumi, uma japinha figuraça, bem miudinha, toda tatuada, a mina parece um gibi, mano, fechamos umas apresentações pruma firma, ela precisava de um trio, acertamos o cachê e pegamos o Metrô. Ela ia descer do lado de casa na próxima estação, pra mim tinha mais uma baldeação, um bumba e uma lotação. Sabe c’umé?

Sempre fico na ponta das barca, é instinto velho, um bagulho que acontece com quem pegou muito cipó aí pelas quebrada: malaco fica sempre ligado no movimento, sacou?, mas você nem se liga, é reflexo, entende?, aquela história de olho na fritura, outro no gato. Vida de neguinho, mano... Fim de tarde, sabadão, o metrô tava meio vazio, ou meio cheio, vá saber, aquelas figuras de sempre: uns adolescentes lá na ponta, uma tiazinha com um monte de sacolas, um gravatinha com a pasta nos joelhos, duas madames conversando nos bancos do meião, um camarada em pé, bem gordo, vestido de branco, um casalzinho do nosso lado dividindo os fones do aipode no maior love; só passageiros na boa, filmei a galera de ponta a ponta do vagão, tudo sussa, sentei na janela apreciando a paisagem.

Ve-de-eme. Parece até que tá escrito na cara das pessoas, mano, uma parada assim à toa, aquela pinta de gente enlatada, a cara de paisagem de quem anda atulhado nos busão da vida, cara de quem só tá levando na arruela, manja?, tipo réu confesso, tatuagem na testa: eu vivo uma vida-de-merda, e isso não é diferente no lotação da perifa ou no trem dos classe-média-comédia, mas, velho, tenho que reconhecer: vida de burguês é também uma ve-de-eme que nem a vida de pobre, mas é melhor. Se é pra pagar de otário, ser corno da vida, mais vale ser explorado com uns trocados no bolso, até porque, seguinte, dinheiro não traz a felicidade, mas compra o sossego.

Firmeza irmão, até macaco cai de árvore, relaxei e vacilei, baixei a guarda e foi aí que tomei bola nas costas, assisti de camarote um correria playboy “trabalhando”, dá pra crer, cumpadi? E eu que achava que mauricinho só roubava com contrato e firma em cartório, marquei touca bonito, mas, ó, me liguei de cara quando o mala começou a ação. Não sei explicar, é showtime, um bagulho mágico, que nem a hora de entrar no palco, uma eletricidade diferente; o camarada de terno abriu a mala, puxou o cano ― uma 765, mano, um berrão ― e vinha suavão, na manha do gato, na paz de Cristo, falava baixinho pra cada pessoa: “carteira, relógio e celular, rápido!”; era vapt-vupt, ele parou na frente da tiazinha das sacolas, bem à vonts tirou os brincos dela, depois fez os adolescentes em grupo, na finesse, sem grito nem apavoro, ele começou na outra ponta do vagão e veio vindo até o lado onde a gente tava. O ruim é que cada vez que terminava um otário, me olhava, cara, não gostei nada daquilo.

É como diz: em céu de gavião urubu voa de ladinho, mas a Mizumi nem se ligou no movimento, falei umas duas vezes na orelha dela: “é assalto, Mi, borajá, de pé rapidinho, vamo ficar do lado da porta”, ela não se ligou nem quando puxei ela do banco na direção da saída; é bróder, tem gente que dá esse apagão, fica fora do ar na hora que bicho pega, agora, taquiospariu!, como demora entre uma estação e outra. A mina viajando num papo nada a ver e eu só vendo o malaquias se aprochegando da nossa, lembro que apertei o braço dela que ficou marca depois, tava me cagando de medo que ela fizesse merda...

Na real, tinha medo que qualquer mané começasse a causar, porque, só pelo jeitão do cotoco já saquei o tamanho da mandioca, mano, o camarada era gelado e tava ligadaço em tudo que rolava em volta, profissa mesmo; cumpadi, o trem finalmente parou na estação (porra, quanto tempo demora de uma estação pra outra?), só pensava em me mandar antes que chegasse nossa vez... só que o tranqueira já tinha colado em nós, a porra da japinha continuava falando, pá-pá-pá, pá-pá-pá sem tramela e o cano da pistola cutucando minhas costelas, ladrão chega na minha orelha e solta: “tamo junto, irmão, tu vai ficar no vagão, desço eu na próxima, copiou?” Acenei que sim.

A sem noção ainda tentou dizer qualquer coisa sobre precisar descer na próxima estação, mano, tomou um corte tão curto que calou no ato: “tá me gastando mina?, aí, o teu tá guardado (mostrou o berro pra ela), fica pianinha, fica...”. Obedeceu sem mais.

O autofalante castigou a zoação final: “não é permitido pedir esmolas dentro dos vagões do metrô”.

O cara desceu na plataforma e saiu andando na direção da escada rolante, ninguém desceu; quando o trem saiu, não sei o que deu me mim, saí pelo corredor falando com as pessoas, perguntando como é que estavam e tal, e só aí que me liguei na fita toda: o tiozinho de branco, o gordinho, ni qui cheguei nele já saiu falando: “pelamordedeus, moço, seu amigo já me levou tudo” ― na certa o safado falou pra cada um que eu era comparsa e que ia ficar de coruja até ele dar no pé! Já era, peguei a minha amiga e desci rapidinho na outra estação; de que ia adiantar ficar ali explicando que focinho de porco não é tomada, já era...

Enquanto o metrô saía, espiei o casalzinho que ouvia o aipode dividindo os fones: eles nem tinham se ligado de nada que rolou; no mundinho deles, só love, só love.

sábado, 3 de julho de 2010

O SER QUE NÃO É

o Japão (que não pára de matar baleias)
já é
só
não se pode ser o que não
se é
afinal o ser é
e o não-ser
não-é

na África
o melhor de Deus ainda está
por vir
mas Deus não gosta de jogar
(dados)
sem ironia

qualquer um
pode se tornar qualquer coisa
que desejar
ninguém
pode ser aquilo que não
é

eviva
o pícaro lúdico Loco Abreu
última flor da panamérica
latino-africana-louca-índia
que ainda pode ser tanta coisa
mas
que não pode ser o
que não é

evai a Alemanha
multicolor
que mata a Jabulani mansinha
e joga uma bola redonda
no pé

quinta-feira, 1 de julho de 2010

LADAINHA
















E se o que eu vejo é sonho

e o sonho a verdade?

Se a liberdade
que eu tanto persigo

for somente a sombra da gaiola aberta?

E se
está tudo errado
e no final de tudo eu descobrir o nada?

Se eu tiver vivido o ensaio da vida?


E se a felicidade
(que foi prometida)
não passar de um mito, duma projeção?

Eu fiz a miragem,
vivi na miragem,
morri na miragem e nem percebi?

foto: Trezende

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Ainda




Olha
A gente ainda não viveu a melhor parte
O melhor pedaço de nós mesmos
A décima parte
Do que podemos

Sente
Que o que ainda não veio
Se faz presente
Já se pressente
Sem lupas, amplificadores, radares
Sem lente

Marcas
No nosso relógio o tempo
De iludir as Parcas
De cegar as regras
Apagar pegadas

Começam
A fazer sentido nossas letras
A sentir o feito em nossa artéria
A saber enfim que as nossas pernas
Podem mais

terça-feira, 29 de junho de 2010

EU NÃO EXISTO LONGE DE VOCÊ

QUE PERDA DE TEMPO
BUSQUEI
O MAIS AUTÊNTICO PROFUNDO MEU
EU
A RESPOSTA ERA UM OUTRO
TU

QUE PERDA DE TEMPO
ACREDITEI
NUM COLETIVO FUTURO
INEXISTENTE
O COLETIVO PASSOU LOTADO
RUMO
A QUANDO E LUGAR NENHUM

DE QUEM A CULPA?
NÃO
SERIA DA PRÓPRIA LINGUAGEM
GENÉRICA
E ESSENCIALISTA POR NATUREZA?

QUE PERDA DE TEMPO
ASSIM
QUE FALO ENTRO NO DOMÍNIO
DA ABSTRAÇÃO
DO CONCEITO DO UNIVERSAL E NÃO MAIS
DAS COISAS

QUE PERDA DE TEMPO
O SUJEITO
É UMA PURA DIFERENÇA
INOMINÁVEL
NA FALA O INDIVÍDUO ESTÁ E NÃO ESTÁ COMO
FANTASMA

MAS NÃO TEM REVOLTA
NÃO
ENQUANTO ESCREVIA SEM SABER
A ESCRITA
ELA SIM SABIA

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Angústia da Criação




Porque esse título? Posso ouvir de alguns idiotas que simplesmente tem inveja da minha “erudição”,
falta-lhe um orientador diz uma “doutora”,então durma depois de ler esse texto quando disse bancar não é no sentido de receber dinheiro pois afinal de contas eu gosto de mentir mesmo .Dinheiro não me faz falta, outra mentira .Mulheres de quatro por favor, agora falo a verdade . Estou angustiado por não existir um curso que tenha a minha cara porque a minha cara está comigo mesmo.Não quero ser doutor e bancar o ridículo dizendo as mulheres que posso formar uma democracia com elas, porque sei que no final elas vão querer a minha dita-dura...Desculpe se não tenho educação completa é que aquilo que é bom já aprendi na prézinho vendo o seio maravilhoso da minha professora, seio este que sempre volta em forma de pensamento, aliás que imagem maravilhosa até
vou bater uma para passar o tempo...

Cadê o paragrafo ?Não sei,aprendi a esquecer na escola aquele lugar miserável onde as crianças e adolescentes “adoram estar” fazendo de conta que gostam de estudar e assim se esquecer das bucetinhas da vizinhança.Adorava
brincar de médico com a minha vizinha, devia ter 8 anos de idade,pena não ter concluído o exame completo.O pai delas chegou antes e me disse que era melhor voltar para casa. A angústia advinda de criar algo é própria daquele que não quer fazer nada..Por isso vá lendo a minha obra que não quer dizer nada.. Aliás acho ridículo quando visito uma galeria de Arte nos Jardins e vejo uma pessoa a dizer o que a obra quer dizer e não respeita a leitura de outro.. Se a obra quer dizer isso porque não escuto ela dizer tenho de ouvi-la de sua boca?
Agora não quero saber de coisa séria a minha vida durante os ultimos dez anos tem sido estudar,estudar,estudar e me esqueci de que aprendizado só pode ser uma brincadeira pois afinal de contas quanto massei, mais esqueço, mais relembro e mais tenho de estudar, e lógico nada de aplicar tudo que sei, se não vou ser expulso da Universidade pelo simples fato de ser criativo demais
e incomodar os professores que só querem nos avaliar e os alunos somente querem saber de colar e receber um diploma com formato fálico assinalando sua impotência na vida criativa...
Será mesmo que preciso de alguém querendo controlar aquilo que devo saber? O que eu não quero saber mais é de um monte de avaliador ganhando dinheiro em cima do meu trabalho, isso vale para minha editora também.
Veja só o que acabo de ler no prefácio de uma obra do professor Walter Elias Furtado uma homenagem à sua esposa:
À minha adorável mulher, Silvia Alvim de Carvalho, pelas infindáveis horas de ausência dedicadas a este livro.
O nome furtado cai bem para quem já perdeu uma grana no mercado de ações. E aliás obrigado em sustentar sua esposa, pois enquanto o senhor escrevia seu livro eu me dediquei a ela.
Acabo também de receber uma ligação de uma cafetina que me pediu que pagasse a conta da terceira vez que transei com uma menina da casa.Pois é,para você ver como sou explorado coloquei o bruto ela fez o balanço e ficou com o líquido,a mais-valia está eu ter de pagar e ter dado prazer ao mesmo tempo. Aliás Hegel estava certo ao dizer que o trabalho é o espírito alienado de si mesmo,quem não trabalha vive do espírito que continua em si mesmo,agora aquele que trabalha procura superar-se esquecendo-se do próprio espírito, não é essa a experiência da alienação em seu estado mais fundamental?Omais engraçado é também ir ao banco e o gerente querer ver meu CPF e meu RG, para confirmar que eu continuo sendo eu mesmo. O gerente só acredita que eu sou eu quando uma terceira entidade(documento) atesta meu valor de existência.O mais temeroso vai ser
se eu perder meus documentos não haverá nada que prove que eu sou eu de forma que quem quiser
deixar de existir não precisa mais se atirar pela janela é só perder seu próprio documento.Aqui o que
estou tentando fazer é mostrar que talvez a pós-modernidade seja o encontro entre a vida e o prazer
de não existir mesmo insistindo na sobrevivência, não é o contrário do que muitos dizem por aí que
a vida é uma bosta no entanto temem sua não existência e sentem prazer ao afirmar que tudo é uma bosta?Figuras dessas precisam se reiventar, por exemplo o que fazer quando se está desempregado?
Por que não fica tranquilo e vai fazer algo que lhe da prazer?Você por acaso não acha que se livrar do emprego e principalmente de um chefe idiota é o mair presente que ele pode te dar afinal de contas o melhor presente que uma empresa pode te dar é uma carta de demissão.Mesmo é que
gosta de ver os colegas de trabalho e ter de dizer bom dia todos dias não seria melhor ser sincero e dizer que um dia bom é aquele que não preciso ficar repetindo a vida em seus mínimos detalhes o ideal é dizer para sua colega de trabalho se ela não quer ficar pelada no escritório comigo enquanto
os trouxas almoçam,a melhor coisa da vida deve ser lamber a buceta daquela secretária loura de lábios carnudos que anda rebolando por aí imagine se eu comer a sua secretária, bom não imagine muito seu vower filho duma puta. Vaí lá e faça você mesmo.
Até me enojo de entrar em uma padaria e ver aqueles caras dizendo para mim e aí vai um mineiro quente, eu prontamente tenho de responder que prefiro um queijo de minas na chapa. Porque a viadagem anda tão grande na avenida brigadeiro luís antônio que o simples fato de eu recusar
educadamente o ato sexual com a garçonete que trabalha no restaurante ao lado já se torna um viado é até bom que eu seja viado mesmo porque se vocês tivessem certeza da minha masculinadade aí mesmo é que não iam me deixar em paz.

Acabo de voltar do bar em que conheci um cara esquisito seu nome é Dimitri Borja Korozec filiação:Pai servo e mãe brasileira.Profissão:assassino Alvo predileto:Líderes Políticos,o cara é muito esquisito disse que seu pai era um anarquista de um grupo que arrancava o testículo da direita forçando os que nascessem a serem da esquerda.Ele me contou sobre a data mais sagrada do calendário histórico dos sérvios, Domingo, 28 de junho de 1514 – A batalha de Kosovo, realizada há
cinco séculos, em que, segundo a mística eslava, a flor dos Bálcãs foi esmagada pelo barbarismo dos turcos.Lembrei-me da guerra da bósnia televisionada a quatorze anos atrás, eu muito inocente não conseguia entender porque a televisão registrava aqueles acontecimentos. E também nunca entendi a guerra do Golfo(1991).Esse ato de não entender nada não é o mais desesperador que pode
acontecer a um ser humano?Ao perguntar ao pai porque as pessoas se matam a pergunta mais interessante é porque eu continuo vivo enquanto outras pessoas continuam morrendo inocentemente?Porque sou obrigado a assistir espetáculos de sadismo onde crianças são estupradas velhos maltratados pelo seus filhos e psiquiatras a dizer que meu pânico diante do mundo não passa de um complexo mal resolvido não será essa a fantasia da pós-modernidade superar os próprios pais
através de uma luta falsamente “revolucionária”? Será que vou ter de continuar a ouvir dos psiquiatras que minha rebeldia não passa de um complexo mal resolvido?Ou será que devo aplaudir
o rapaz que num ato involuntário de liberdade destrói as mercadorias de sua casa porque tentou mostrar ao mundo que o as mercadorias escondem um excesso próprio do capitalismo e que aquele monte de merda o deixa muito incomodado, e a quantidade de aulas que somos obrigados a assistir
simplesmente porque um professor precisa de emprego? E se devessemos acreditar que a noção de pós- modernidade deva ser abandonada e que simplesmente devemos repitir o gesto de nossos pais lutando para que as pessoas se relacionem através de um ação comunicativa de talhe Habermasiano?Todas essas são questões que muitos tem de fazer a si mesmos para acabar com sua
própria idiotice...
E se com a pós-modernidade estaremos também nos desfazendo da própria ética moderna?E se o sujeito ético é aquele que simplesmente não consegue entender o que quer uma mulher afinal de contas o que poderia uma mulher querer um cara como eu? Um idiota que simplesmente não consegue estruprar uma mulher,ou seja,obriga-la a fazer aquilo que ela sempre quis fazer mas não sabe que quer?E se eu um dia estuprar uma mulher só me resta torcer para que ela goste do ato e contrate uma advogada de acusação bem gostosa é claro,assim terei o melhor prazer em descrever
como foi o ocorrido para ela e de réu passarei a ser mais um sortudo por aí....

Alexandre Alves - alexandrealaa@hotmail.com

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Boca Suja do Coração Limpo




Por favor,
arregue para o amor.
Cague e ande
para que os outros vão pensar e falar de você.
Chute o balde do medo.
Dê um
pé no saco da solidão.
Este poema vulgar quer falar a língua dos homens.
Larga de ser
trouxa e vai viver no amor.
Não fique pensando no passado e no futuro.

Desopila teu fígado.

Descarregue a cabeça das
merdas que você pensa.
Vem ser feliz agora,
cacete, não deixa pra depois!
Manda tua vaidade
plantar batatas.
Essa
porra de vida se esvai num minuto.
Então, larga de
frescura e vem!
Essa minha boca suja quer dizer que te ama pra sempre.

Então,
foda-se o resto!

(escrito por Mauricio Santini@mauricinico.blogspot.com)

domingo, 20 de junho de 2010

as coisas a que chamamos palavras

o problema da poesia
é sabermos se ela existe
ou não

ouvimos

o canto das sereias
cegamente
porque o poeta se amarrou
ao marinheiro

os pássaros falam com os anjos
ecos da criação
a língua dos deuses deve desaparecer
para que haja vida
assim como a realidade deve morrer
para que haja poesia

recentemente descobriram
que a loucura é só uma forma
mais sublime
de ciência

poesia é bandalheira
e sacanagem
o poeta veio para barbarizar
chama as coisas pelo nome
trata as palavras
como coisas

o trabalho da linguagem recorta
o dizível
em pedaços descontínuos
a natureza da poesia é ultrapassar
fronteiras

o poeta
usa metáforas como arma

contra a metafísica
faz do veneno
remédio para a linguagem cometer
suicídio

aqui onde estamos
as coisas ganharam
a autonomia
que as palavras perderam

quarta-feira, 16 de junho de 2010

o violino é o corpo, o violinista a alma, mas então, o que é a música?


o corpo precisa da alma
que acha que não precisa
do outro


a alma não suporta
o real
inventa mapa-mundos rotas
de fuga


acontece que
o real é incansável musical
não desiste
nunca


a dor pede um corpo
mas
a alma é o instrumento
da dor


o corpo se espeta
na alma
conjunção articulada carnal
cármico


a dor nos desperta
à vida
a ilusão leva
ao amor

segunda-feira, 14 de junho de 2010

cuidado com aquilo que você ama, seu cérebro pode acabar se viciando nisso

(Siphiwe Tshabalala comemora o primeiro gol da Copa de 2010)

futebol é basicamente ocupar espaços

Nelson Mandela puxou 28 anos de cana
em ilhas do terror
em celas onde não podia caminhar
nem ficar de pé
seus carrascos, foucaultianos, castigaram-lhe o corpo
para lhe quebrar o coração
para assim lhe vincar a alma
e nela instalar uma dobradiça

a vida é guerra
que o jogo da bola em sua desimportância
imita
futebol, mais que precioso ópio, supérfluo
fundamental item entre os que não têm nenhuma
importância

no futebol como na vida não há sistema
completo
se um time joga avançado
desguarnece a retaguarda
se joga mais recuado
precisa roubar a bola
avançar com rapidez
e não desperdiçar as poucas chances
ah, e o caos sempre prevalece
sobre esquemas e previsões

os meninos correm descalços pelos campos
da África

os deuses do gramado desfilam na rede
e são bafokengs, xhosas e zulus
e então sei que o mundo nasceu
de novo a vida começou
porque só Ali e Pelé suspenderam a matança
na África



porque o futebol é a desforra da poesia
só na batalha de 90 minutos um único artista
num lance solitário
pode dar a vitória
à beleza

Mandela não se dobrou e nem quis a vingança
um novo herói nasce em Soweto
lá a vida passa raspando como uma bola
rolando rápida no tapete de Soccer City
voando
como um canhotaço de Tshabalala
um pombo sem asas
no ângulo no ninho da águia
mexicana

festa na favela
festa no mundo todo
força rapazes!
sou bafana bafana
desde criancinha

sábado, 12 de junho de 2010

liberte-se 18 de maio


Sem crueldade ou opressão
Vivo eu Vive tu
Nesta eterna desconstrução
Sentimos como pássaros caídos
De um tempo de incertezas
Com pouca remuneração
Mas não existimos só nós
Também Médicos e Psicólogos
T.Os. e Enfermeiras
Os loucos são eles?
Será acso tortura sem nome...
Precisamos de Remédio
E sentimos muita fome...
De alimento, de carinho de Atenção
Liber-te-se um Dia
E não se esqueçam Nossas Emoções
Reprimidas, Angústia e sem Ninguém,
Qual doido ou ator
Não sentem falta de Amor.
E o que dizer das Famílias
Pobres e desunidas
Que seus olhares lamentam
Tanta desorganização
Talvez alguém ouça nossos gritos
De mim, De Todos, tão aflitos
Que Dói não Sabermos
Totalmente Sãos.

Libni, 17/05/2010

domingo, 6 de junho de 2010

a memória das não-coisas

toda a poesia
é precisamente a situação
oscilante
de um bêbado à beira do precipício

mas a minha memória
cloaca máxima de rejeitos
espécie de museu
do oblívio

define e consome
as coisas como se só elas pudessem perdurar
para além da nossa mesquinhez
e precariedade

porém
amar não é
entre as diferenças nomeadas cotidianamente
previstas
captar as afinidades subterrâneas suas
dispersas similitudes?

porque há uma relação com a vida
que é de espanto
miragem
além do valor funcional
da serventia

como um E.T. tombado dos céus
que a estudasse com paixão e obstinado rigor
tomando paulatinamente consciência da queda
desarvoradamente
alumbrado diante das coisas

sábado, 5 de junho de 2010

COSMOEROTICA

transvivência
a noite tem a idade
do meu esquecimento e descuido do medo que tive
da presença
vazio de mim mesmo flutuarei
sobre golfundas honduras
interiores
enterrado batatarei do teu trigo
lançado durante as calêndulas
abissínicas
o mundo só existe em mim
como ruído
comigo morre um campo cantante primevo
corroídas desmemórias simetáforas
só eu me perco pelas esquinas da carne
nadanonada
no frio hiato que interrompe as letras e as acesas
estrelas
do chão de ferro se levanta o vento forte
aos que temem o peso das próprias
asas
contemplarei a aura das flores
lúrida conspirata que consolida
poeira com osso com osso com carne com ectoplasma
numa ação de marketing sinfonia dos corpos
deusa insaciável gozo de Deus
retesado
em turbilhão de imagens alcalinas
ou correntes rios inermes catódico-cacofônicos
a lavar o cemitério marinho da academia
dos místicos
suspenso o sentido instilada a pausa
namente despalavrada assopra
a brisalma do eterno
briluz alegria
docilêncio

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Buraco Negro



o mundo não é nada mais
que eu trago em mim

eu morto
ele acaba

(edmar)

O Sorriso da Lua


Postagem conjunta com José Doutel Coroado

(foto retirada do Google-Walt Disney-1951)

numa densa noite
quem sabe segunda?
uma alucinante
lua vagabunda
em quarto minguante
tal qual gato de Alice
feliz a sorrir
plena de maluquice
prepara-se para sumir



domingo, 30 de maio de 2010

nada é o que aparece, o invisível sempre estraga tudo

o segredo do mundo não guarda
nenhuma redenção
talvez apenas mais
demência

você vive imune na Bolha
mora na Zona Verde de Bagdá
ou pega buso no pé do morro
(Ameno Resedá)?

mas existe fora do Google Maps
algum lugar de não
de mentes que incaptam
o Sistemafodão?

não há limites naturais
para o impensável
o assassinato em massa elevado a arte
performática do século

estranhamente familiares despidas
de afeto belas e amargas crônicas
sobre pessoas vazias de esperança
e sentido

eu você e todos nós
nada fazemos pelas
outras pessoas como qualquer
outra

acontece que ainda estou na pegada
seguindo segundo
a segundo a levada beat
pulso da pulsação