domingo, 10 de janeiro de 2010

A Inveja - parte I


Às dez e vinte certinhas tocou a campainha da casa do irmão. Não havia novidade nisso, morava no outro bloco do mesmo condomínio no Tatuapé. Mudaram para lá quase na mesma época, eram vizinhos de janela, a diferença é que Matias NÃO morava numa belíssima cobertura com face sul.
Matias e Martin, a dupla dinâmica, os irmãos Ma-Ma, o casal MM ― vários apelidos tinham recebido durante a vida assim, em conjunto, e Matias sempre teve a impressão de que apenas servia de “escada” para o irmão mais velho. Era como se ele fosse o Luciano e o irmão, Zezé de Camargo; ele, o Robin, enquanto o irmão, Batman. Mas aquela noite mudaria tudo isso para sempre.
Larissa abriu-lhe a porta sorrindo tímida e pedindo para não reparar a bagunça. Não tinha como não reparar, era um mistério indecifrável: como é que podia reinar tamanha balbúrdia numa casa sem crianças ou cachorros e com três empregadas? Tá certo que o apartamento era grande, mas ainda assim parecia esquisito. Parecia-lhe inadmissível, por exemplo, que a louça e os talheres do jantar (podiam ser até do almoço) ainda se encontrassem sobre a mesa de jantar; não conseguiu reprimir o pensamento de que o impecável aprumo visual que Martin ostentava era apenas para uso externo.
― Você chegou bem na hora, senta por favor... preparo uma bebidinha pra nós? ― ela estava resplandecente num vestidinho de organza, bem típico dela, que não precisava de muito para realçar o charme natural. Bem, na verdade, não precisava mesmo realçar nada aos olhos dele, que trazia enrustido um caminhão de sentimentos desde que a conhecera.
― S-sim, boa idéia ― Matias não era de beber, mas não recusou o Jack Daniels que Larissa lhe serviu com uma solitária pedra de gelo. O drinque preferido do irmão.
Correu os olhos pela casa, foi até à varanda; aquele era um apartamento de revista de decoração, aliás, volta e meia saíam ensaios fotográficos do elegante conjugado sala-e-cozinha assinado por um desses designers cinco estrelas. A sua casa não tinha nada desses emperequetamentos, mas vivia limpa e arrumada. Pegou uma revista da mesinha e largou-se no sofá de couro macio que soltava um suspiro antes de afundar. Ela trouxe as bebidas e sentou junto dele, que já acusava um princípio de embriaguez com o perfume doce... da mulher do seu irmão!
― Já passou uma chamada do programa e ele apareceu... tá muito boa a camisa que você emprestou pra ele usar hoje, obrigado ― os longos cílios dela levantavam e abaixavam delicadamente, parecendo sublinhar cada palavra que ela pronunciava com um acréscimo de gratidão e gentileza. Larissa tinha posto um ponto final a uma longa fila de relacionamentos confusos com mulheres idem que povoaram a vida amorosa do irmão. Matias lhe era grato por isso, mas nenhum bom sentimento aliviou a facada que sentiu no peito quando o irmão lhe anunciou o casório-relâmpago.
― É agora, já passaram os comerciais dos patrocinadores... ― Matias aparentava constrangimento por ficar a sós com a cunhada, apesar de toda a hospitalidade e dos esforços dela para que se sentisse em casa. ― Ainda bem que você lembra de agradecer pequenas atenções como a camisa, se for esperar meu irmão lembrar disso...
Como em tantas outras coisas, sentiu-se prejudicado no casamento do irmão; como regra, Matias sempre ficava com o gosto amargo da derrota na maioria das situações que diziam respeito à relação entre eles. Sem que ninguém desconfiasse, nem ela mesma, Larissa era um dos pomos dessa secreta discórdia. Talvez as coisas tivessem se passado de outra forma se Matias não houvesse escondido tão bem o que se passava dentro dele. Evidentemente, não há justiça no mundo dos sentimentos, eles apenas são e ponto; pode-se dar este ou aquele rótulo depois que acontecem, mas não há mandar neles ou domá-los como se fossem tigres de circo mambembe. Ninguém põe ordem na casa da mãe Joana que é o coração.
― Ah, nisso você tem razão... Martin nunca lembra desses “detalhes” ― era uma bela morena de traços finos e tinha berço, uma nota afinada na vida do empresário da panificação que naquele momento participava de um talk show na televisão. Larissa já tinha se feito a pergunta fatídica: teria escolhido o irmão certo? O marido tinha sido mais direto e atirado, foi claro nas intenções e desabrido nas palavras, direto ao ponto como as mulheres gostam. Suportava mal as ambigüidades e joguinhos de sedução que fazem parte indissociável dos relacionamentos. Ultimamente, após quatro anos e meio de casamento, começava a se perguntar se não tinha se deixado levar por uma espécie de propaganda enganosa.
― Você não acha que vivemos um momento incrível na gastronomia nacional? ― a entrevista transcorria segundo o roteiro ameno dos programas de variedades.
Era uma daquelas entrevistas em que o convidado cozinha, conta a história da sua empresa, dá opiniões vagas sobre a conjuntura mundial, os desabrigados em Bangladesh e acaba contando uma anedota pitoresca e/ou picante envolvendo a sua vida privada. Martin usava um avental em que se destacava o nome da empresa: Empório Lícia. O Empório Lícia tinha se tornado um império, uma rede de padarias que invadira os recantos chiques da cidade levando confeitos de qualidade média pra boa a preços semi-extorsivos.
O talento administrativo de Matias tinha sido decisivo na fase de crescimento acelerado da empresa: negociara aluguéis e luvas dos pontos comerciais, fechara os contratos com os fornecedores maiores, contratara os novos gerentes das filiais, treinara os novos funcionários e, recentemente, tinha desencadeado o processo de transformação da rede de panificação numa franquia nacional. Martin cuidava da parte externa, era bom de conversa, cheio de contatos e figurinha carimbada em festas e bocas-livres; acumulava as diretorias de marketing e comercial. Desenvolver uma identidade visual para a empresa, bolar a estratégia de divulgação e as ações de mídia, tudo isso eram atribuições que desincumbia admiravelmente, ainda que deixasse a impressão de participar menos do dia a dia da firma.
― Ai, que esquecida que eu sou, você já jantou? Nem te ofereci nada... ― o intervalo comercial e o silêncio do cunhado acabaram por embaraçar a Larissa que, sem se dar conta das implicações, advertiu-o de que tinha dado folga para as domésticas e que não esperasse nada mais que um requentado de microondas. Percebia com clareza crescente que também ela se contaminara pela ausência e descuido das funções cotidianas que eram a marca registrada do marido. Exatamente o contrário do que Matias lhe passava com a sua onipresença, suas constantes atenções; era o tipo de pessoa que passava para os outros a sensação de confiança e disponibilidade por meio de pequenos gestos.
― Humm, deixa pra lá... tomei uma sopa antes de vir. Da hora a sua idéia de aumentar o logo do avental ― a mão dele acariciava distraidamente uma aba do vestido azul, o que a obrigou a se levantar para não encompridar o mal estar. Serviu-se de outra generosa dose de Bourbon enquanto ela buscava às pressas uns salgadinhos. Algo lhe dizia que estava funcionando, e muito, o seu estilo minucioso; já que o seu forte não era o arrojo, sabia que Deus morava nos detalhes. Ou o Diabo. ― Escuta, o que eu ganho se descobrir qual é o perfume que você está usando?
― Bem, amendoim japonês talvez não seja lá muito tentador para um empresário do ramo de alimentos... ― Larissa deixou o amendoim e a castanha de caju na mesa de rádica ― Vamos ver: uma resposta dessas vale... quer dizer, ah sei lá! Diz aí, vai, quero ver se você é bom mesmo!

3 comentários:

angela disse...

Quero saber o final....que maldade com uma curiosa como eu!
Muito bom. Da pra ir imaginando a casa, a cunhada, os irmãos, as sementinhas dos conflitos...e o que está por vir.
Me lembrei de algumas pessoas.

José Doutel Coroado disse...

Boa Filipão.
Estou como Angela.
Essa história de estória aos bochechos me deixa em pulgas...
Fico aguardando as próximas cenas

missosso disse...

bem companheiros, a coisa é longa (oops), mas não vou me fazer de rogado, abs