terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Inveja - parte III


Matias enxergou ali a sua chance de ouro: devolver anos e anos de desfeitas e injúrias agüentadas em silêncio e resignação, sempre em nome de um ideal maior de família, de objetivos empresariais. Essa harmonia forçada era o que os pais esperavam que houvesse entre irmãos-sócios; no entanto, ele sabia que a felicidade tão evidente no casamento dos pais passava longe daquele lar de revista em que o irmão tinha encarcerado Larissa. Acreditava mesmo que a estava libertando. Nem lhe passava pela cabeça que, no dia seguinte, aquela situação seria como uma bomba cheia de pregos a se cravar em todos à sua volta.
― Vou abaixar um pouco a luz ― sua mão procurou pela parede o dimmer, descendo alguns graus de obscuridade.
O primeiro beijo foi na sala de estar decorada com imensos óleos sobre tela e gravuras, que pareciam rodopiar em torno deles como se estivessem num salão de baile e as pinturas fossem os outros casais. A partir daí, Matias ficou frenético, arrancou a dentadas o vestido de organza, beijou-a, enlaçou com a mão esquerda os cabelos para lhe descobrir o belo pescoço, que lambeu com avidez enquanto a arrastava para o quarto, do qual conhecia perfeitamente o caminho.
A agressividade tanto tempo represada fluía livremente transformada em volúpia sexual, uma vida inteira de anulação e humilhações perante o irmão estava sendo resgatada por uma noitada de depravação com sabor de vitória. Possuir Larissa era resgatar o brinquedo tomado pelo rival, servia de redenção para tantos anos de raiva fria e engolida a seco. Não é todo dia que se pode vingar as derrotas imaginárias.
Matias descontou tudo na forma de loucuras de cama a que se entregou com a sofreguidão dos marinheiros; já não se importava com nada, que dia ia ser amanhã, o que ia acontecer ou deixar de acontecer ― agora ele corria para o abraço que nunca teve do irmão que, assim, por procuração, iria pagar por todas as humilhações e rebaixamentos que teve de suportar calado. Já que haveria uma catarse, que fosse na forma de uma inesquecível noite de sexo selvagem.
― Ai, manera nas mordidas, você vai me deixar toda marcada...
― A idéia é essa... humm, relaxa, ele nem repara mesmo...
Acreditava na lei da ação e reação. Cada uma das pendengas antigas voltavam-lhe à memória, cada ocasião em que a mãe o tinha freado dizendo: “paciência, filho, você sabe como é o gênio do Tinho...”, cada uma das vezes em que teve de se encolher para o bem do irmão, ou melhor, do Empório Lícia; tudo isso cobrou seu preço. E a conta veio alta.
Chegou a assustá-la com a veemência do seu desejo. Larissa fantasiava uma transa carinhosa e doce, tal como Matias lhe parecia ser; imaginava um passeio no mar no dorso de um golfinho, não esperava um tigre dando o bote, um cínico que até uma camisinha sacou da carteira na hora H. Just in the case, disse, anda sempre comigo. Sei.
O tapão que ele lhe estalou na bunda fez com que as mordidas parecessem de verdade; uma ficha começou a lhe cair naquele instante: ela desconhecia por completo o homem com quem estava na cama ― um cara infinitamente mais interessante, e perigoso, do que supunha. Mal podia acreditar que era a voz do irmão bom moço do marido lhe sussurrando na maior cara de pau:
― Fala, sua vadia, fala pra mim que ele não te come que nem eu... ― Matias utilizava todas as cartas que tinha na manga, tudo que aprendera com as profissionais, fazia questão de qualidade total no atendimento a clientes ultravipes.
― Pra quê falar nele, é só por isso que você me quer?
― Sabe o que é? Gosto do cheiro de outro homem numa mulher, é como um tempero a mais, sacou? ― ele arrancava rapidamente as máscaras da decência social, era vertiginoso.
― Você é um pervertido, é o que você é... ― agarrou-o e rolaram enroscados no futton macio ao longo da cama king size.
A noite foi longa em diversões loucas, mas não tanto que ele se permitisse dormir lá. Foi despertado violentamente de madrugada por um pesadelo que felizmente esqueceu rápido; a festa tinha acabado, as roupas jogadas pelo chão eram suas e o quarto onde se encontrava também era o seu. Lembrou que tinha saído sem acordar a satisfeita, belíssima, mulher do irmão, que dormia com um sorriso nos lábios. Uma enxaqueca, anunciando a inevitável ressaca moral que se avizinhava, se tornou insuportavelmente consciente quando ele se viu no reflexo do espelho do banheiro pela manhã. Sabia o que o esperava: uma semana de dor contínua, remédios fortes e uma piora da gastrite em conseqüência deles como saldo final da crise.
Por pouco ela não tinha acertado na mosca ao chamá-lo de pervertido. Mas não era a mesma coisa, pelo menos não exatamente a mesma coisa; o que parecia perversão era na verdade uma religião privada, uma seita de uma pessoa só. Matias tinha criado para si um emaranhado de crenças que explicavam em detalhe seus horríveis sofrimentos e incrível azar. Embora sua vida pessoal e empresarial descrevesse uma sólida curva ascendente, ainda que fosse um chef pâtissier respeitadíssimo, até pelos professores do prestigioso Cordon Bleu onde se formara, ele se obstinava na crença de que era um tremendo azarado. Se estivesse certo a respeito de si próprio, ele seria um paradoxo: um loser de sucesso.
Cada acontecimento, pequeno ou grande, positivo ou negativo, só fazia confirmar sua vocação de sofredor. Achava que só com ele aconteciam coisas ruins, ou que, para ele, a cota de eventos desagradáveis era maior e, mesmo quando algo de bom acontecia, era apenas para tornar a inevitável futura queda mais alta e dolorida. “Tudo te será dado, tudo te será tirado; trabalha e confia”, gostava de repetir nos treinamentos dos funcionários do Empório. Funcionava como uma espécie de versão peculiar da doutrina da raça superior ― com o detalhe masoquista de que ele não fazia parte do povo eleito ―, Matias punha fé na milenar divisão da raça humana entre os escolhidos, para os quais a vida sempre anda sobre trilhos, e os outros, aqueles para quem tudo sempre dá errado.
Desde cedo, encasquetou que os pais tinham escolhido o irmão como filho querido; mais tarde, teve certeza de que não era ele o sucessor que eles queriam na padaria. Um dia, ele tinha acabado de completar quatorze anos de idade, o pai o colocou pela primeira vez para tomar conta do caixa; mas não quis ver nada de bom nisso, antes uma forma de livrar o irmão da parte chata do ofício.
― Quando a cigana leu a minha mão, não disse que EU era o cara; por isso, só confio em disciplina e organização ― outra das suas frases feitas, que podiam ser entendidas de muitas maneiras diferentes, sem que fosse possível atinar com o real significado e alcance.
Às vezes, durante os apertos financeiros e dívidas bancárias na fase de expansão dos negócios, ouviram-no lamentar fatos minúsculos e secundários como se fossem o sinal de um agouro irreversível, mas ninguém compreendia esses rompantes. O que nem ele próprio conseguia entender era uma mania que passou a chamar de perda de realidade: a impressão de que era um autômato, de que não estava vivo de verdade. Era uma sensação bizarra: pensava, ou acreditava pensar, que estava perdendo a certeza de viver dentro de uma existência real, nítida; sentia constantemente um cansaço, uma displicência mesclada com fatalismo que o impediam de avaliar sua verdadeira posição no mundo.

4 comentários:

José Doutel Coroado disse...

gostei do "looser de sucesso" ... lol
a sério... está muito bom.
sempre quero ver (ler...) como acaba.
abs

angela disse...

Mantém o ritmo vibrante, esta muuuuuito legal.
Dificil é aguentar as dores da vida sem esperança alguma. A vida fica amarga.

Paulo Henrique disse...

quando as certezas vascilam, talvez, seja o início da verdade.

mauverde disse...

Tõ seco aqui, puta que o pariu! Cadê o resto? CADÊ??!