sábado, 4 de abril de 2009

quarta-feira, 1 de abril de 2009

DASDOIDA na pça do PA(i)TRIARCA

a convite da ZÁ PIETHA, a DASDOIDA desfila no 2º FASHION DOWN TOWN em março de 2009

segunda-feira, 30 de março de 2009

o que falta à verdade para ser dita


desdobramentos fugidios de um pequeno território livre:

nunca descobri o que eram as tais “conversas de adulto”,

até porque nunca conheci realmente um “adulto”,

as pessoas que conheço, com o passar do tempo, e quando têm sorte, apenas

envelhecem, como as frutas que, ao invés de amadurecer, apodrecem diretamente;

muito poucas pessoas se tornam melhores do que a criança que foram,

a maioria acaba prisioneira de algumas, ou de muitas, das manias que inventou,

deve ser por isso que nunca encontrei pessoalmente um “sábio”,

embora conheça gente que é especialista nas mais variadas coisas;

na melhor das hipóteses, chega-se a conhecer muito sobre um pedaço do mundo,

mas desconheço quem saiba viver; aliás, a vida é um daqueles temas em que todos

falam no escuro, parece que quanto mais importante um assunto é, mais se fala dele

e menos se sabe também ― mas é MUITO deselegante mencionar este fato

em conversas sociais; o pouco que aprendi sobre “ser adulto”, diz respeito a fingir

que se sabe o que se está fazendo, ou dizendo, e para onde se está indo, curiosamente,

o fato de ninguém saber nada beneficia mais os conservadores e hipócritas do que

aguça a necessidade de mudar
; quando guri, no caminho da escola volta e meia cruzava

com a louca do bairro, a Lurdinha da Fausta, dizia os meses de floração de cada

planta, nomeava as espécies de cambaxirra, os montes, os córregos, cão, gente ou gato,

como sabia, se não trabalhava como os adultos e não ia à escola como as crianças?

“eu pergunto”, respondeu-me

quarta-feira, 25 de março de 2009

domingo, 22 de março de 2009

OS 3 UMBIGOS DO SONHO



Um sujeito nunca é dizível por inteiro. Ou porque é atravessado por enredos, uma cacofonia de vozes, imagens, falas que o constituem (o Outro), ou porque a própria ideia de sujeito tenha sido tramada previamente na interdiscursividade, enovelando o sujeito do inconsciente com o sujeito da comunidade ― vozes, palavras e figuras dos outros; espécie de tecido germinativo que dá origem ao psiquismo e cujo cordão umbilical alimenta nossa vida imaginária. Na fronteira dos múltiplos ‘eus’ internos com esses pequenos outros (‘eus’ heteronômicos), urde-se um descentramento radical: o que sou não é dado por uma essência, uma substância, nem por uma ideologia própria ou alheia; trata-se menos das vertentes da identidade, psicológica ou grupal, e mais das condições fundantes do ser ― sou a partir do que me é alheio, do indeciso ente que me sonha, daquilo que, para mim como para os outros, dorme no mistério.

Uma obra de arte, como um sonho, nunca pode ser interpretada por inteiro. Ali onde uma representação se forma, ela nos escapa em parte. A arte do sonho trança as fibras do que se apresenta e do que se representa, retorta onde o inconsciente se entranha no corpo, o sonho funciona como sistema de trocas entre a noite e o dia, a biologia e a cultura, atividade e repouso, apropriação e sujeição, a vida e a morte, o sono e a vigília. O espaço onírico oscila entre estados do Eu e do não-Eu, à maneira de um conjunto de matriochkas que se incluíssem e excluíssem reciprocamente, como se a subjetividade, expandindo-se ao infinito, pudesse colapsar o fora da sua (oni) presença, permitindo ao objeto existir na interioridade e na distância, ao espaço conter seu negativo e ao tempo um fechamento sobre si. A tamanha violência o aparelho psíquico reage neoformando, remodelando o que era economia instintiva em pulsional: o delírio é este universo concentracionário em que todos e cada um são, foram, poderão ser... Deus.

O sonho é elaborado dentro, mas tem de se fechar fora, ele só conserva sua substância com o fora. O corpo do deus Osíris flutua despedaçado sobre o Nilo, Ísis e Néftis sopram vida aos 42 pedaços, menos um, o pênis, comido por um peixe: a morte como castração final da vida, mas também como sua condição. Na dimensão mítica, só ao preço de se tornar virtual é que o falo poderá sustentar a potência fecundante, nela, o externo é convocado a completar o interno, a série se completa pela ausência, etc., etc.. Na obscuridade do sonho nascem os híbridos sensação-pensamento, organismos feitos de memória-percepção-signo cujo umbigo (boca, olho, vagina, ânus) ameaça tudo devorar. Sabemos quando estamos acordados, o que nunca temos certeza é se estamos sonhando. Até onde podemos saber acerca do enigma do sonho?

“Mesmo nos sonhos mais bem interpretados, é freqüente ter de deixar um lugar nas sombras, porque, na interpretação, percebe-se que ali há um emaranhado de pensamentos do sonho que não se deixa desenredar, mas que tampouco dá outra contribuição ao conteúdo do sonho. É o umbigo do sonho, o lugar onde ele repousa no desconhecido. Os pensamentos do sonho a que se tem acesso pela interpretação têm de permanecer, de forma geral, sem qualquer fechamento e partir em todas as direções na embaralhada rede de nosso mundo de pensamentos. De um lugar mais denso dessa rede surge o desejo do sonho como o cogumelo de seu micélio.” (Sigmund Freud).

Já neste primeiro umbigo, psicossomático, somos confrontados pelo impensável universal, material submetido ao recalque primordial, inacessível ao pensamento e à linguagem; no umbigo interpsíquico também o sentido deriva de uma formação arcaica nodal irrepresentável, nesta outra matriz onírica o campo é compartilhado, espaço onde circula um pensamento do sonho comum a vários sonhadores. Mas sabemos que os sonhos podem ultrapassar ainda este nível da telepatia grupal, do sonho coletivo: num terceiro bulbo do sonho se articulam o rito, o mito e a profecia.

Os indígenas da América inventaram diversos filtros de sonhos, para deixar passar os sonhos e barrar os pesadelos, manter os mortos longe dos vivos que dormem e afastar os espíritos nocivos dos lugares de purificação e cura; p.ex., os xamãs dos Algonquinos (Canadá) instalam teias de couro amarradas em ramos curvos, com penas colocadas a intervalos regulares em torno de nós ou contas. Dos umbigos do sonho emergem os meta-níveis: assim é o mito que vem interpretar o sonho, mito que é signo de uma outra língua, um signo de signo. Os índios já sabiam que são estes nós mais densos que revelam os sentidos ocultos da vida humana; para eles, os sonhos também são filtros de mitos.


quinta-feira, 19 de março de 2009

psigotica

agradar uma fêmea é como pegar um sapo na mão





Sônia fazia de conta que não estava casada com Vera, vivia atrás de qualquer balada, até bingo beneficente ou quermesse de paróquia serviam; em tais e tantas orgias andava, que a vizinhança até já tinha cansado de falar mal. De começo, ainda vá que respeitou dia de semana, depois a coisa desandou, o sábado começava na quinta e findava na terça; daí pra frente, tudo virou feriado e os dias da semana já não bastaram pra tantos convites. Sônia causava. Vestida de longo, exagerando no lamê e no strass, ela reinava nos bailes do Andrade, deslumbrava nas matinês da Sociedade Operária, arrasava na festa do Havaí do clube Água Verde e, das domingueiras do Tiradentes, só voltava segunda de manhã, maquiagem desfeita, meias-calça rotas, sapato de salto quatorze na mão. Vera ainda lhe fazia um café forte antes de sair para o serviço.

Vera sempre fumando, somítica de tão magrinha. Ralava horrores na hora extra para pagar faturas de cartão, sua vida era uma consumição: levantar papagaios, cobrir empréstimos, discutir com gerente de banco pra aumentar o limite do especial, parcelar dívidas; vivia numa dobadoura atrás de agiotas e factorings, tudo em nome de manter o padrão de vida da casa. Como era assessora de deputado estadual, trabalhava de verdade enquanto o “doutor” bonecão deputava ― em todos os sentidos. Eram dois celulares e um nextel tocando o dia todo, com requisições deste, pedido de emprego praquele, associações disto e daquilo buzinando no ouvido dela. Seu único luxo era o cigarro ― dois maços de Carlton prateado por dia. Além disso, fazia bicos de repórter freelance pra uma revista de aviação e pegava uns trocados testando remédios novos para uma indústria farmacêutica. Sônia embirrava com este “trampo de cobaia”, como costumava dizer.

Aline, sobrinha de Vera, morava com elas na casa de dois cômodos, própria, único bem de família que o pai cachaceiro de Sônia não conseguiu beber. A moça era autista, a mãe não a quis levar para Camocim quando se casou pela segunda vez; a avó era falecida e sobrou pra Vera criar a menina, que dava trabalheira por dez. Quem cuidava mesmo era Sônia, já que Vera saía pra trabalhar e também não tinha muita paciência pra essas coisas. Aline não falava, não comia sozinha, não se vestia sem ajuda, se pelava de medo de ir em médico e dentista só lhe mexia na boca com ela debaixo de anestesia geral. Até as necessidades Sônia tinha de lhe ajudar a limpar. Seu único vício era comer os fósforos queimados que Vera espalhava pelos cinzeiros da casa. Problemas havia, mas eram uma família.

Até que P. chegou.

sábado, 14 de março de 2009

Todo Cuidado é Pouco com os “Operadores Simbólicos”!


ilustrador: Bruno Urbanavicius
No meio de uma entrevista a um repórter francês, na maior cara lavada, John Kenneth Galbraith saiu-se com esta: “no atual estágio da tecnoestrutura capitalista, uma empresa como a GM não precisa buscar primordialmente a maximização dos seus lucros”. Passados 39 anos e com a tsunami econômico-financeira devastando o planeta, incluindo a própria General Motors, as palavras do conselheiro de John Kennedy e professor de Harvard não soam irônicas e/ou proféticas ― são (e eram) mentira pura. Aquele tipo de bravata arrogante de quem deitou banca demais, falação demais, para um monte de baba-ovos acríticos. Nos anos 60-70, J.K. Galbraith era “o” cara: dava pitaco sobre moda, economia, política, comportamento e até, se bobeassem, na escalação do meio de campo do Olaria.

Pulando para os 80, um outro guru da economia sacou do colete a “Terceira Onda” da civilização humana; na esteira da Revolução Agrícola e da Revolução Industrial, Alvin Toffler prognosticava a Era da Informação, em que predominariam as empresas de serviços e os profissionais que ele chamava de “operadores simbólicos”. Quem seriam esses obreiros do virtual? Nada de tão novo assim: aquele tipo de gente que não fabrica um prego, não aperta uma arruela etrusca, nem é capaz de compor um pagodinho em hebraico clássico, profissionais cujo trabalho consiste primariamente em operações abstratas realizadas sobre bases de dados simbólicos e que, acrescentemos, se c... um monte para as conseqüências práticas das mandracarias que fazem.

Ao contrário da patranha galbraitiana, a ideia de Toffler faz algum sentido, muito embora uma definição tão ampla acabe por incluir quase qualquer atividade humana, por exemplo, o projetista de uma sonda espacial, o desenvolvedor de Linux, o estilista de uma grife de alta costura, o anotador de jogo do bicho e o menino da pipa que sinaliza a polícia para o traficante, estão manipulando códigos, signos e meta-linguagens com inúmeras camadas de sentidos e vários graus de abstração ― o que os qualifica, portanto, como “operadores simbólicos”. Duas categorias destes profissionais etéreos, no entanto, vêm chamando a atenção hoje em dia, o “povo do mercado” e os “formadores de opinião”. Deles aguardamos as mais deslavadas mistificações.

Os tratados de alquimia diziam que o que está em cima é como o que está em baixo, tal como o que parece à direita, pode estar à esquerda e vice versa. Um presidente da federação dos bancos (concessão pública), que pega dinheiro do governo e empresta a juros 10 vezes maiores e não quer ser chamado de sacana, pode muito bem ser um dirigente esquerdista ao molde soviético. Já um sindicalista que gere um fundo de pensão de uma mega estatal, na verdade é um big player... do mercado! Diante do atual estouro das Bolsas, o povo do mercado vai insistir em potocas como “o estouro de bolhas especulativas faz parte da dinâmica capitalista”, “as bolhas são cíclicas e geram riqueza no processo”, ou ainda, “o capitalismo é melhor que suas alternativas porque sobreviveu a elas” e assim por diante. Já os ideólogos da Bolha podem encampar a tese de que houve no Brasil (e já estaria encerrada) uma tal de “ditabranda” militar.

Ou seja, a quartelada dos milicos brazucas teria sido soft comparada com nossos hermanos (hahahaha). A Bolha (da fama) e a Bolsa (de valores?) estão com problemas de, digamos, densidade ontológica ― todo cuidado é pouco.

domingo, 8 de março de 2009

quase-ensaio sobre Khôra, o informe

ilustração de Bruno Urbanavicius

Perde-se na noite dos tempos a origem da noção de que participamos de dois mundos, um, material e captado pelos sentidos, outro, sutil e apenas acessível ao espírito. Platão entendia que no primeiro deles vivem os seres visíveis e, portanto, sujeitos às vicissitudes do nascimento e da morte, chamados por ele de Cópias (mimemas); estes, não passam de sombras dos seres ideais e imutáveis que vivem no mundo eterno dos Modelos (paradeigmatos).

O mesmo filósofo, porém, nos advertiu da existência de um terceiro gênero (triton genos) de seres, vivendo num mundo situado entre o espiritual superior e o reino de corrupção da matéria, ou entre o que é imediatamente percebido pelos sentidos e o que pede a mediação do inteligível ― uma realidade entre realidades, mas que não é estranha a nenhuma das outras.

A Khôra pode ser entendida como um lugar (topos), uma matriz, um receptáculo de marcas evanescentes ― diria que é um não-lugar que dá lugar e “coisidade” aos outros lugares e coisas. Não se pode compará-la a um substrato, um campo, tampouco a um espaço: Khôra é onde se assentam sítios e situações, podemos supô-la sem que seja representável (muito embora seja condição de toda representação). Ela não existe, mas é.

Estas considerações trazem associações com a comunicação, na qual, até mesmo em meio às metáforas inertes das falas ordinárias, intervém a autonomia arbitrária do significante. Como (re)produzir uma tal superfície virgem de recepção e ressonância, onde localizar este terceiro que espreita o discurso na relação incerta entre fala e linguagem? A tentação aqui é tornar homólogos o suporte pictográfico da representação e a primeiridade originária do informe, cuja liberdade divina não conhece limites.

O informe (amorphon) não guarda nada do que recebe e, por isso, tem de ser constantemente reinstaurado. Sendo o lugar dos lugares, Khôra se manifesta como “o que vem ao falar”, vale dizer, como região em que se inscrevem, ou ainda, o aspecto que tomam as coisas quando são faladas num dado local e momento. É nas sensações confusas que trazemos de quando a memória não alcança, que a linguagem reencontra a fonte e a força, sua figura e seu nome.

Espécie invisível, porta-traços destituído de propriedades, não atingimos Khôra mediados pela razão (logos), nem pela via direta da experiência estética, a alternativa mito-poética; é preciso um tipo de raciocínio híbrido (logismoi nothoi), um pensamento que tanto carece de lucidez, quanto se abre à profecia. Tamanha negatividade anacrônica ela comporta que mal lhe podemos dar crédito: seu discurso inaudível, as figuras (schemata) que engendra, se anunciam/enunciam como um sonho.

sábado, 7 de março de 2009

a mirada anterior

foto de Maria do Carmo Valente



O mundo em que vivemos, sentimos, pensamos, agimos, aparece desfigurado ao acordar na correnteza ou emprestado para ruínas em construção.

Parâmetros calcinados de um lar insuportável.

É um mundo de beleza tumultuária, assustador e aconchegante, que se manifesta/dissipa, em que cenários tombam congelados sentidos; onde não há razão de ser, apenas a necessidade de ver.

È um Real de maravilhas noturnas, mas sempre, e em última instância, imaginário-assassino

Desativar o prodígio, suspender desertos e opiniões latentes ao lesco-lesco de todos os dias: ser Deus sem ter que acreditar nisso!

Todos já tivemos esse olhar, essa capacidade de antecipar o silêncio, já soubemos (sob a pele) do material instante em que a duração pausa no destempo das pulsantes dinâmicas.

Interessa recuperar a comunhão direta das coisas, ouvir o rumor da inquietude quando cai a existência da cidade interna.

A outra vida está aqui, nunca mais será agora.

um lugar entre



foto de Maria do Carmo Valente

terça-feira, 3 de março de 2009

DESASTRE EM CURSO

foto de Carlos Patrício

À maneira de Lorca diria:
soy perro lunar, ando com a luz
coberto de jornais eu dormia
a rilhar dentes espantos pregos pus

dedico-me à miséria pisoteada,
luxo, solidão, finanças, fúria,
amo tudo que é barato ou lírico,
mas faço maus negócios no escuro,

na cantoria de estrelas tísicas
a vênus das peles procuro,
sou transurbano, multivíduo,

fábricas de signos consumo,
alienação: temporânea cultura,
no corpo, o morto e o vivo misturo

domingo, 1 de março de 2009

Pureza


Faz sentido colocar-se a nu se quer receber alguém em sua nudez.

Natural questionar a própria lucidez se quer comunicação com os que duvidam da própria.

Necessário perder um pouco do chão se quer diálogo com os aéreos.

Quem já perdeu o verniz da vestal e permitiu-se mácula pode viver o mundo com amor.

Não voltarás como tu mesmo e o que já foste nunca mais o será. Perder-te-ás. Mas falarás em muitas línguas e olharás com olhos de bondade, humor e tolerância para a imensa aventura que as crianças empreendem.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

gregório delgado


ciencia descabida

eu estou tentando escrever tentando e conseguindo eu ja sou um homem velho mas tem plano de menino cabeça de cientista presa no proprio destino as vezes tem esplosão mas o meu calculo é fino cabeça de cientista presa no proprio destino sou escravo da lembrança até me falta o tino gosto das coisas rimadas por isso agora eu rimo enquanto meu corpo chora minha alma tá sorrindo enquanto meu gado berra meu cachorro esta latindo enquanto eu to pensando o ladrão rouba meu tino e eu olhando pro céu e a benção do céu caindo encontrei a eternidade no passado conseguido sou gregório delgado e desse jeito termino.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

o desequilibrista



estou ficando cada vez mais

nu

muito mais do que seria

conveniente

retirando, um a um, os véus da minha

história

desvendo a intimidade dos meus

fantasmas

que é o mesmo que pôr a vida sexual na

vitrine

como o encontro de completos

desconhecidos

como a memória da não-linguagem que

inventamos

para deixar de ser apenas

corpo

para poder falar com o

desconhecido

domingo, 22 de fevereiro de 2009

reflexão sobre as possibilidades de se viver livremente num mundo programado por aparelhos


psicótico, sujeito experimental por excelência

alucinações & visões, pensamentos transformados em imagens

as imagens são pacotes de dados que pretendem representar algo

resultam da possibilidade de se abstrair dimensões no continuum espaço-tempo

imaginação é a capacidade de gerar, transmitir e decifrar imagens

a imagem é produzida e distribuída a fim de informar

imagem implica magia, automação e jogo

informação implica símbolo

toda fotografia se aproxima da ginástica mental do alienado

fotografia não é máquina, mas brinquedo, como as cartas de baralho

o jogador: re-invenção/subversão deste estado de coisas

a transformação: de geopolítica em cronopolítica

propiciada pelas novas fontes de imaginário

entidades que participam plenamente da instituição de mundos percebidos

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

tudo merece uma segunda pele

foto de Carlos Patrício


Quando um artista rompe com a matéria de que é feito, equivale, para o mundo, à descoberta da própria textura. Mais do que se dirigir a um público, a verdadeira obra de arte abriga usuários dos ambientes e conexões que estabelece; cada obra se descobre enquanto participação e diálogo, na medida em que cria pertencimentos e se conecta com realidades onde vivem seres flutuantes.

Coexistem no objeto estético múltiplas arquiteturas simbólicas: por exemplo, se numa região do fenômeno artístico predomina o conceito, com o inevitável cortejo da infinita reprodutibilidade, noutra, evidencia-se a dimensão site-time-specific, em que a arte intervém na qualidade de dobra, de elemento reflexionante no jorro da vida.

Criação delirante, libertação por hipertrofia, o habitat da poesia é topologia instável transformada em sonho tangível. Arte não é resultado, é resto. É o que resta de um esforço para repotencializar a realidade, aumentá-la com metáforas, deformá-la por meio da saturação (ou carência) de sentidos.

A arte não transforma o mundo, nem o artista, mas pode revelar em ambos seus percursos imprevisíveis e suas desconcertantes mentiras. Eterna e efêmera, cópia e simulacro, aço e alabastro, resiliente e dúctil, assim é a physis contraditória com que o artista ergue sua paisagem de segredos e revelações ― geologia de superfície cujo desabamento contínuo não pára de soterrar nosso frágil cotidiano.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

diário de debutante



tenho hora marcada, disse
a recepcionista pergunta com quem
com o desencontro, pensei

impaciente por demais
não espero o poema
maturar
ou por demais avoada
perco-o para as distrações cotidianas

talvez só o calo
da vida
contra o furco
tempo
proteja do vento e da chuva
(as portas que dão para o mundo
arrombou-as o poeta)

para não entupir de morte
a alma
neguei (3 vezes) a vida
limitei restringi calquei
tudo que cresce ao redor do
agora

até que, de repente, alguém grita
― um rato!
mas aí já é tarde
como, pergunta estoutra, senhora
de cartórios e rendas,
distinguir os domésticos, dos migratórios, dos de laboratório?

talvez sobrevivam apenas
as perdas
que troco por novas
ilusões
e depois de me separar
de tudo e todos que amei
ainda
adiar o fim
a mim
mesma

animal-nuvem-museu
carne de fuga permanente
rosto sempre palavra
incoagulável
comunidade arborizante das entrelinhas
onde roço o espectro das não-coisas
tangendo rebanhos de abismo
eus mudo

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

“por que será que o amor é imensamente mais rico do que qualquer outra possibilidade humana?”



Finalmente morávamos numa casa com o enorme quintal que sempre sonhamos: as árvores, os bancos de pedra, pássaros, canteiros de flores, longas aléas. Nosso estado de espírito era de festa, os amigos vieram, muitos se beijavam embaixo da chuva, cada um caminhava a seu belprazer (também fazia sol) entregando-se à vida; ninguém tinha medo do dia de amanhã, a quizomba foi virando quizumba e a função atravessou a madrugada. Era um desses palacetes antigos como havia na Consolação ou, talvez, na Doutor Arnaldo. Dizíamos um para o outro, “que sorte temos”. Alguns amigos precisavam voltar para casa e os acompanhamos até o Metrô; enquanto trancava os portões gigantescos da casa, irritei-me com um idiota que assustava uma moça no ponto de ônibus. Brincadeira besta. Não sei bem porquê, mas embarcamos com nossos convidados durante um trecho da viagem. Descemos numa estação para a qual uma única porta do vagão se abria, nela descobrimos uma construção subterrânea, como se fosse uma plataforma ou túnel inacabado. Andamos fazendo curvas por um chão de terra até que acabou o caminho, ao voltar, percebi que a entrada por onde a gente tinha descido do trem não ia se abrir de novo. Você me disse calmamente: “não se preocupe comigo, tenho mais sonhos que arrependimentos”.


sábado, 7 de fevereiro de 2009

sou parente de tudo que existe



o sono não passa

........................................a cobra despeja

de uma distração

.........................................seu veneno

tola

.........................................no Paraná-Açu

(fuga de sentidos)

.........................................as águas dissolvem

durante o sono

.........................................o vitríolo

uma das várias

..........................................que não polui

pessoas que somos

..........................................o grande rio

descansa

...........................................os igarapés ou o mar

enquanto os outros

...........................................porém a peçonha fica livre

velam

...........................................do peso amazônico

mas então: quem sonha?

............................................de ser veneno

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

a favor de um tempo que virá





no presente contínuo
........................................dos tempos enfileirados


imiscui-se impertinente
........................................o amorfo acontecimento


assim foi a história
...........................................que vivi na carne


plena de paradoxos
...........................................alógica indócil a toda


hierarquia classificante
..............................................ou coerência superior


assim os descaminhos
..............................................paralelos do tempo


assim as colaterais
..............................................vias desvios cegos


trilhos errantes
................................................suspensos sem lar


que comportam
.....................................variação/repetição inesgotável


que ramificam
................................................movimento e cesura


para administrar
.................................................o ouro do porvir

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Parir a Eternidade: Obra do Amor

Passiflora, flor da paixão e do maracujá


A faculdade do conhecimento reconhece a dívida da memória para com a presença. Logo, o saber é incerto. O certo é que um amor é o amor em si mesmo, pois que há nele uma unidade, e esta unidade é contingência e solidariedade e vazio.

No amor não há dúvidas, só a cegueira convicta daqueles que se abrem às promessas do mistério.

Viver radica o existir na possibilidade; viver o amor, amar a liberdade, é o teatro eterno do pacto com o desconhecido.

Não sei o nome da fera que me apareceu em sonho, não sei e não quero saber. Há coisas demais do “outro lado”.

Agora que se foi, sinto a falta dela, para falar a verdade, sinto falta da ausência dela.

Imagino que sei o isso significa: só me cabe o amor que termina, que é instante, potencialidade, aposta. Amar o que está, não o que é.

Às vezes um espelho num lugar inesperado, outras, uma superfície refletora qualquer produz esse menos-que-segundo de irreconhecimento ― quem é?

Amor, desamor, reciprocidades que não são por, ou com, alguém, mas que repousam aquém do visível, no hiato do entre-tempo.

O que seria amar o amor, cair a seus pés, ser outro nele, confiar no mundo, acreditar que isto é a felicidade?

Ou seria apenas mais uma ilusão?, como o encontro das paralelas no infinito, na eternidade realizar-se-ia seu poder ignorado, embora nunca houvesse estado oculto.

Ansiamos retê-lo, mas então o amor não se mostra; gostaríamos de transformá-lo, mas ele é pura metamorfose; desejaríamos agradecer-lhe, mas ele é perfeita generosidade e aventura.

Não encontramos nada que seja suficiente, ou revelação a tal ponto incompreensível; não há o que possa dominar esta força, que a possa dizer ou negar, constranger ou provar.

Só assim elevamos nossa vida à sua real potência, só desta forma o exílio adquire significado e a morte pode ser costurada à alma pelo avesso.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

livros que o Lula não leu nas férias


Homens e não (1945), de Elio Vittorini. Sem saber que Theodor Adorno proclamaria não ser possível a poesia depois de Auschwitz, uma geração de escritores engajados na luta contra o nazifascismo produzia, literalmente neste caso, no calor da batalha. Arte contra a barbárie, mas, ainda assim, arte que é, acima de tudo, a favor de si mesma. Pouco depois o autor romperia com o partido comunista.

Além dos Marimbus (1945), de Herberto Sales, é um primor de concisão e acabamento, neste road romance nada falta nem sobra; ourivesaria tão precisa e sofisticada consumiria décadas de trabalho do autor até à versão final, de 1961. Um curioso personagem secundário: o fazendeiro João Camilo, proto-ecologista em meio às hoje devastadas matas da região das lavras diamantinas da Bahia.



A Lua e as Fogueiras (1950), de Cesare Pavese, é uma obra prima. Após finalizar o livro, o autor se mataria, o suicídio, na época atribuído a um misterioso amor fracassado, figura entre os grandes enigmas da literatura mundial, como o desaparecimento de Carlos Castañeda, o rosto de J. D. Salinger, a vida privada de Shakespeare e o auto-exílio de Rimbaud na África.

Rituais (1995), de Cees Nooteboom, parece um filme francês: o protagonista não faz nada da vida, não se interessa verdadeiramente por nada nem ninguém, mas ― oh, surpresa! ― as pessoas à sua volta sentem-se atraídas por seu feroz, embora na aparência displicente, narcisismo. Bom de marketing, o autor estrelou uma edição recente da Flip, vendido como “o maior escritor holandês vivo”. Será?




A Ditadura Envergonhada (2002), de Elio Gaspari, é o primeiro de prometidos cinco livros sobre o período da última (esperamos) ditadura militar no Brasil. Documento vivo e fabulosamente rico em informações, a leitura traz puro deleite quando esquecemos de que horror se trata. Gaspari opta por focar dois personagens-chave no desenrolar dos acontecimentos: Geisel e Golbery; de quebra, discute a tese de que a administração do país criou, dentro do regime militar, uma insanável fonte de rebelião e anarquia. Quem pôs fim ao estado de exceção foram os próprios milicos. Ponto. De modo que o vezo autoritário, a exemplo da escravidão, talvez seja uma dessas marcas que a nação carrega como pecado original do qual não quer se livrar.




O Castelo na Floresta (2008) é o epitáfio de Norman Mailer. Ficção histórica ou história ficcionada, o livro trata da família Hitler e acompanha a infância e adolescência do maior avatar individual dos escabrosos totalitarismos que o século XX produziu. Detalhe: o narrador é um demônio encarregado dos anos de formação do menino-monstro que tem o poder de penetrar na mente dos personagens. O resultado, muito mais que assustador, serve para nos relembrar que a arte é um tipo de mentira que é mais verdadeira que a verdade ― quem, além deste camaleônico jornalista-gângster-escritor, poderia nos oferecer tamanho tratado de anatomia do Mal Radical? Previsivelmente, a crítica torceu o nariz; assim como na atual crise econômica que os “expertos” não detectaram, o caso é de cegueira generalizada. Confesso que, lendo estas páginas sombrias, ouvi mais de uma vez o riso sardônico do próprio Coisa-Ruim.








quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

o mel é a um tempo amargo e doce



O humano não existe, é dito.


Queremos saber se está nele o monstro, ser homem e mulher, ser mãe e filhos, trazer em si toda a fúria dos desertos.


Dizemos que o gigante está em nós.


A mão que fia o mais que precioso fino fio, entrega a lista dos que vão para o estígio rio.


É a mão do homem.




domingo, 4 de janeiro de 2009

por quê o Pedro Bial tem aqueles dentes?

Desenho de Roberval Salles

sim porque TODO MUNDO na tv tem os dentes não brancos mas reluzentes de alvura na tv tudo brilha e cheira a novo a não ser quando entrevistam os tais “populares” daí que a pergunta poderia ser más bien para quê os mantém assim e o mais irritante é saber ou antecipar que a resposta é do tipo carta roubada está literal e constantemente na nossa cara e no entanto esquecemos por descuido preguiça lassidão que aderem ao pensamento como a velhice se deposita na pele nos ossos e articulações e progressivamente incapacita para a conversação com as crianças aliás estas talvez respondessem com a sabedoria fabular é para te comer melhor mas então eles os dentes não seriam de Pedro mas do Lobo e dentes de lobo são pontiagudos separados e bem brancos em contraste com o corpo o pêlo e a floresta negros é sempre a Floresta Negra nas ilustrações ou aquelas fieiras de dentes do cartaz de Tubarão jaws não não são antes dentes de rato irregulares sujos pequenos mas singularmente poderosos os dentes dos famosos são grandes e limpos como a nos recordar que para chegar lá eles os bacanas precisaram morder muito aniquilar muitos então percebe-se o alcance da mensagem é de comer gente e ser comido por gente que se trata canibalismo é a palavra já o canibalismo-ato tem a ver com quebrar para conhecer estraçalhar para conservar ambivalência com o amor devorado ódio ao objeto ao laço à relação àquilo àqueles que amamos filiação e identidade alimentação incorporação e despedaçamento estaremos condenados a destruir tudo que amamos outra possibilidade seria pensar num certo charme europeu europeus têm dentes péssimos é fato sabido bem como os acadêmicos mas nestes o buraco é mais pra dentro o bafo intelectuais acadêmicos têm bafão é outro clichê na certa porque comem muita coisa ruim muita gente também boa ou ruim os dentes ficam sujos devido aos restos aos detritos que a comensalidade indiscriminada acarreta essa história de viver com podreiras na boca que diz masca expele engole tritura regurgita cospe mói deglute rilha engulha o que não temos coragem de encarar nem em posto de estrada tresnoitados de cansaço e sono e impaciência e fome rodoviária de chegar ao destino o ser humano é bastante incoerente e talvez seja isso que o Bial está berrando no vídeo nem tudo fecha nem tudo é perfeito o que eu acredito não bate com que eu digo e bate menos ainda com o que eu faço os humanos não podem ser inteiramente coerentes sob risco de desabamento central do ser o equilíbrio a plenitude a justiça a harmonia são fatalmente cansativos como a ilha de Circe desperta a nostalgia da ilha familiar imperfeita dos rancores e intrigas do ódio aos seus ao qual sempre retornamos desterrados na própria casa édipos odisseus já que o que está perdido volta como fantasma desde que se tenha fodido tudo antes e desta forma o CANIBAL MELANCÓLICO é um assassino do tesouro que custodia daquilo que vai manter presente a partir da ausência que então não é mais perda mas retorno alucinação compreensão do outro do diferente desde que o possa matar comer porque na tv só me interessa o que não é meu só existo onde não estou quase posso ouvi-lo dizendo lá a verdadeira vida lá na telinha dou carteirada trabalho na Grobo no logo me espia um olho ou globo dentro de uma tela com outro olho-globo dentro portanto sou prisioneiro do espelho mas o espelho também é meu prisioneiro “fora rede globo o povo não é bobo” e naquele instante apostava sinceramente numa vida num país melhor e por isso a emissora do plim-plim sacou a levada do Bial a espiadinha básica não adianta esconder a vocação desse negócio é mostrar escancarar tudo sim desde que somos modernos vivemos aglomerados em massas desde a aurora da humanidade socializamos em torno do espetáculo a fala encantatória da poesia vidiota Bial é o cara o oficiante do casamento sem nós do exibicionista com o voyeur um fantástico show da cena cínica what you see is what you see meu sonho é o seu o seu céu é o meu eu sonho o que você quiser que sonhe o Olho pode ser a boca-cloaca pública testemunha do corpo no qual vivo como recheio imagem que me presentifica uma imagem é o que como com os olhos e absorvo com os dentes de uma barriga vazia de sentidos we the people na multidão não há só anulação das diferenças em benefício de um líder o que aconteceu é que os líderes deixaram de fazer diferença eu dizia que o Bial tem dentes de rato e o rato é o Delator no que insisto a nossa relação doentia com as palavras dá-se toda e nenhuma atenção a elas por exemplo os dentes e o jornalista escritor cineasta não estão lá por acaso o Grande Irmão não é o Grande Pai que nos fez à Sua imagem e semelhança o Grande Irmão é a soma imaginária das dessemelhanças do semblante de cada um nós o fizemos e quisemos assim como é e ele só faz o que mandamos que faça Pedro Bial Hebe Camargo Sílvio Santos não são pessoas como nós ELES SÃO AS NOSSAS PESSOAS somadas individuadas empilhadas transformadas aglutinadas caras que odiamos amar bocas que amamos odiar a democracia abole as aparências decentes da representatividade na democracia os representantes são pássaros na gaiola de ouro da representação atores à deriva numa escolho móvel na pós-modernidade o Outro é o travesti do Mesmo na pós-modernidade o rei é um escravo que sente saudades da guilhotina única liberdade que lhe resta nela o povo opressor é livre e soberano para comer quem quiser